domingo, 22 de Junho de 2008

Narciso

Narciso era o mais belo jovem de toda a Grécia antiga. O profeta cego Tirésias profetizara que ele viveria por muitos anos, desde que nunca se conhecesse a si próprio. Infelizmente, Narciso conhecia-se até bem de mais. Todas as manhãs, quando acordava, a primeira coisa que fazia era olhar-se no seu grande espelho. Passava uma das mãos pelos seus longos cabelos louros. Piscava um dos seus brilhantes olhos azuis. Flectia os músculos e sorria para si próprio com uns dentes brancos perfeitos.
Metade das raparigas da região estava apaixonada por ele e o problema era ele ser de tal modo tão vaidoso que destroçava corações a torto e a direito.
Uma ninfa, de nome Eco, apaixonou-se por Narciso. A Eco fora retirada a faculdade da fala e condenada a repetir sempre as últimas palavras de quem falasse com ela. Por isso, quando tentou dizer a Narciso o que sentia por ele, apenas conseguiu usar as palavras dele. O resultado foi desastroso.
Encontrou-o um dia numa floresta.
- Olá! - saudou-a Narciso. - Presumo que sejas mais uma dessas mulheres que me acham tão atraente.
- Tão atraente - respondeu Eco.
- Logo vi - disse Narciso. - Pois bem, estás a perder o teu tempo, receio bem.
- Receio bem - disse Eco.
- E bem podes recear - continuou Narciso. - Para ser muito sincero, nem que fosses a própria Afrodite eu te deixaria vir para o pé de mim.
- Para o pé de mim! - exclamou Eco.
- És surda ou quê? Acabei de te dizer que não. Vai-te embora.
- Embora! - gemeu Eco.
Compreendendo que não havia esperança, a ninfa fugiu do bosque, com as lágrimas a correr pelo rosto. Passou o resto da sua curta vida com o coração destroçado e sozinha, num vale desolado, a viver numa gruta. A sua carne desapareceu. Os ossos tornaram-se em pedra. Em breve restou apenas a sua voz - e se alguma vez você se encontrar num vale ou numa gruta e chamar, ainda a ouvirá responder.
Narciso continuou o seu caminho. Mas aconteceu que Afrodite ouvira as suas últimas palavras para Eco e vira o que acontecera. E zangou-se. Afrodite era a deusa do amor e Narciso, por palavras e actos, tornara-se inimigo do amor. Lançou-lhe uma maldição que o faria apaixonar-se por si próprio.
No caminho para casa, chegou-se ao pé de uma lagoa de água cristalina, numa clareira da floresta. Ajoelhou-se para beber. Foi então que viu aquele que era - aos seus olhos - o mais belo jovem do mundo. Ficou de boca aberta. O rapaz também. Piscou os olhos de espanto. O rapaz também. Sorriu. O rapaz sorriu-lhe. Apaixonara-se pelo seu próprio reflexo.
No dia seguinte os seus pais - que o tinham procurado por todo o lado - encontraram-no ainda sentado junto da lagoa.
- Narciso! - exclamaram. - Que estás a fazer?
- Chiu! - murmurou Narciso. Uma lágrima solitária brotou-lhe do canto do olho. - Podem assustá-lo. É tão belo... mas tão cruel. Quando eu tento tocar-lhe ou beijá-lo ele foge de mim. - Estendeu a mão e tocou a superfície da água e, obviamente, o reflexo estremeceu e desapareceu. - Mas volta pouco depois - continuou Narciso, numa voz suave e distante. - Vejam! Aí está ele! Não tem uns olhos lindos?
Apesar dos rogos dos pais, Narciso recusou-se a sair dali, fitando em silêncio o seu próprio reflexo. Não comia nem bebia. O seu tormento era tanto maior quanto, embora o objecto do seu amor estivesse apenas a alguns centímetros dele, não poderiam nunca tocar-se, não poderiam nunca encontrar-se.
Por fim, a dor tornou-se demasiado grande para ele. Parecia-lhe que o rapaz da lagoa sofria também, pois tinha o rosto terrivelmente magro e os olhos inchados e vermelhos.
- Fiz-te sofrer pelo menos tanto quanto tu me fizeste sofrer a mim - murmurou Narciso. Com a mão, procurou o punhal que trazia no cinturão. - Não te farei sofrer mais.
Enterrou o punhal no coração. Soltou um grito. O rapaz gritou. E algures, longe dali, Eco gritou também.
Narciso morreu. E Afrodite, sentindo pena dele transformou o seu corpo numa flor como recordação do que acontecera. E ainda hoje se podem encontrar as flores do narciso crescendo livremente nas florestas e desabrochando nas margens de uma lagoa silenciosa.

Aracne - O Desafio de Tecelagem

Aracne era uma jovem da Meónia. Tornou-se famosa no seu país devido à sua extraordinária habilidade para tecer. Vê-la tecer, com os dedos a dançar sobre o desenho, era, por si só, um prazer. Quer ela estivesse a fazer girar o fuso com um simples toque do polegar ou a bordar o tecido já acabado, ninguém conseguia tirar os olhos dela.
Infelizmente, era um pouco menos dotada com as virtudes da modéstia, humildade e generosidade. Era malcriada com a mãe, agressiva com as criadas e geralmente teimosa e antipática. Mas foi a sua arrogância que a perdeu.
- Nenhum deus consegue tecer como eu - dizia - nem mesmo Atena. Comparada comigo, a chamada deusa da sabedoria não passa de uma tosca, de uma trapalhona de dedos gordos. Aposto que ela tem ciúmes de mim.
Estas palavras eram duplamente insensatas. Primeiro, porque fora Atena a deusa que lhe dera aquela habilidade. E, em segundo lugar, ela costumava reagir com bastante severidade a insultos como estes. Atena era uma amiga terna e atenciosa, mas era uma terrível inimiga.
Mas, Aracne continuou, descuidadamente.
- Aposto que Atena não era capaz de competir comigo. Teria muito medo de perder, especialmente com uma simples mortal. Mas, às tantas, se calhar há um pouco de deusa em mim.
Quando estas palavras lhe saíram da boca, uma velha, que entrara na sala sem que ninguém a ouvisse, deu alguns passos em frente, apoiando-se numa bengala retorcida. Era mesmo muito velha, tinha o cabelo muito branco, a pele muito flácida e os olhos baços e cobertos de pústulas.
- Uh! - exclamou Aracne. - Quem és tu, velha?
- Não devias fazer troça da velhice - disse a velha -, pois ela traz consigo a experiência. Escuta agora a voz da experiência, Aracne. Está muito certo que te consideres a melhor fiandeira entre os mortais. Talvez o sejas. Mas não está certo comparares-te com a deusa Atena e devias pedir-lhe perdão. Se lho pedires, ela perdoar-te-á. Se não o fizeres, quem sabe o que ela te fará.
Aracne irritou-se. Estava a tecer quando foi interrompida, mas agora parou, levantou-se e empurrou rudemente a velha contra a parede.
- Sabes qual é o teu problema? - disse ela. - Estás velha! Estás senil! Se Atena fosse assim tão esperta, teria vindo aqui ela mesma. E mesmo assim eu não pediria perdão. Punha-me a tecer... e, digo-te, havia de lhe demonstrar muitas coisas.
-Muito bem - disse a velha. - Eis a tua oportunidade.
E de repente ergueu o braço, houve uma explosão de luz e transformou-se instantaneamente. Surgiu uma mulher alta, vestida com uma armadura, com uma lança numa das mãos e um escudo na outra. Um elmo de cinco pontas cobria-lhe a cabeça e à sua volta parecia irradiar poder puro.
- Desafiaste-me - disse Atena, pois era, evidentemente, a própria deusa. - E eu vim. Em breve te vais arrepender.
Aracne apenas sorriu.
- Não me arrependo de nada!
E assim, enquanto a mãe de Aracne observava, pálida e com os lábios apertados, foram instalados dois teares em cantos opostos da sala. A deusa sentou-se num, a morta no outro, de costas uma para a outra, para que nenhuma delas pudesse ver o que a outra fazia.
- A velocidade deve contar tanto como a técnica - disse Atena. - Paramos ao pôr do Sol. Nessa altura compararemos o que fizemos.
Foi a mais estranha corrida que jamais se disputou. As adversárias esticaram os fios nos teares, prenderam as armações às traves mestras, separaram a urdidura, pegaram nas lançadeiras para tecer os fios cruzados... E gradualmente começaram a formar-se dois quadros.
Aracne teceu uma tapeçaria chamada Os Amores dos Deuses. Representava Zeus como um touro seduzindo Europa; como um cisne nos braços de Leda e como uma chuva de moedas de ouro, caindo no colo de Dánae. Havia Posídon, como um touro, como um carneiro e como um rio - sempre como adúltero. Havia Apolo, disfarçado de humilde pastor para iludir uma simples camponesa, Isse. E havia até o ébrio deus do vinho, Dionisio, que se transformara num cacho de uvas para chegar aos lábios da mulher que ele amava. Mostrava os deuses na maior ignomínia.
O tema de Atena era muito diferente, aí estava Zeus mas revelado em plena glória como rei do Olimpo, com um raio na mão e uma águia empoleirada por detrás do trono. Posídon erguia-se com o seu tridente, golpeando uma rocha para fazer brotar uma cascata borbulhante. A tapeçaria chamava-se O Poder dos Deuses. Mas em cada um dos quatro cantos da sua obra a deusa acrescentara cenas diferentes: cenas que deveriam ter posto Aracne de sobreaviso sobre o terrível perigo que corria, se ela tivesse sido capaz de o ver. Mostravam castigos que os deuses tinham infligido a mortais que se tinham atrevido a cair no seu desfavor. Ali estava Ródope, transformado numa montanha de gelo, Antígona e a rainha dos pigmeus, ambas transformadas em pássaros, Cíniras vertendo lágrimas amargas nos braços das suas filhas mortas.
Atena terminou a sua obra bordando a orla com ramos de oliveira, o símbolo da paz.
O Sol pôs-se e a competição terminou. As duas adversárias pararam e viraram-se de frente uma para a outra. Atena percorreu com o olhar Os Amores dos Deuses.
- Não é bem assim que um mortal deveria representar os Olimpianos - observou ela. - Mas a obra está perfeita.
- É melhor que a tua - disse Aracne.
Então a deusa da sabedoria e da guerra irritou-se porque, apesar de espantada e revoltada, não podia negar que Aracne tinha razão. A mortal tinha-a vencido na sua própria arte. Vendo Atena tão furiosa, Aracne desatou à gargalhada, faendo ecoar aquele som agudo pela sala. Mas a sua mãe tremeu, vendo o rosto de Atena empalidecer.
Erguendo a sua lançadeira, golpeou Aracne com força na testa, repetidamente. Aracne gritou e caiu no chão. Mas a deusa ainda não terminara. Fez com um fio um nó corredio, passou-o à volta do pescoço de Aracne e, enquanto a malvada gorgolejava e grunhia, apertou-o, puxando-a para cima para a enforcar numa trave.
Foi então que a mãe de Aracne exclamou:
- Grande Atena! Perdoa a minha filhinha. Ela não sabia o que estava a fazer. Ela não quer ofender. Ñão podes matá-la. Suplico-te!
Então, o coração de Atena abrandou.
- Poupo-te a vida, peste! Mas assim vais ficar por toda a eternidade. Assim ficarão todas as tuas filhas. É este o castigo da tua insolência e da tua vaidade.
Aspergiu-a com um raminho de ervas preparadas por Hécate, a feiticeira, e, no momento em que as ervas tocaram em Aracne, caiu-lhe todo o cabelo, logo seguido do nariz e das orelhas. A sua cabeça encolheu, o seu corpo dobrou-se sobre si próprio, as pernas e os braços desapareceram. Os dedos ficaram colados aos flancos para servirem de pernas. Mas agora eram mais finos e peludos.
E tal como Atena ordenara, foi assim que Aracne ficou. Continuou pendurada acima do chão. E ainda continua a tecer maravilhosamente - embora não exactamente da mesma maneira.
Aracne fora transformada numa aranha.

sábado, 21 de Junho de 2008

Ísis e Osíris


O quarto grande faraó do Egipto chamva-se Osíris. Era um deus, bisneto de Rá, que, segundo os egípcios, criou o mundo. Alto, de pele morena e extremamente belo, era um dos melhores entre os deuses.
Osíris tomou como esposa a deusa Ísis, que, por acaso, também era sua irmã. Ísis era uma deusa muito bela, de braços finos, corpo flexível e elegante e uns maravilhosos olhos verdes. Durante muitos anos Ísis e Osíris reinaram sobre o Egipto, fazendo o bem aonde quer que fossem. Osíris ensinou os homens a cultivar a terra, a fazer o pão e o vinho. Construíu os primeiros templos e modelou as primeiras estátuas. Acabou com o canibalismo. Ísis ensinou a mulheres do Egipto a moer o trigo e a tecer e instruiu os homens na arte da medicina. Deu a Osíris um filho, Horo, que tinha cabeça de falcão e que foi, mais tarde, adorado como deus do sol.
Mas Osíris não estava satisfeito e decidiu partir para a Ásia para ensinar os homens os bons costumes que tinha implementado no Egipto. Entretanto, Ísis governava o Egipto, mantendo tudo em perfeita ordem.
Osíris tinha um irmão mais novo chamado Set, que era em tudo o seu oposto. Repulsivamente feio, a pele branca como a cal, o cabelo vermelho berrante e o nariz arrebitado. Set tinha ciúmes do seu irmão mais velho. Odiava Osíris e queria ser ele o rei do Egipto. Reuniu 72 cúmplices e tramou um plano horrível. Fingia admirar Osíris. Quando este regressou da Ásia ele convidou-o para um banquete comemorativo.
Devido à representação de Set, Osíris não suspeitou de nada e juntou-se de bom grado aos outros 72 convidados, no palácio do irmão. No fim da refeição, Set bateu as palmas e entraram 4 criados, transportando uma arca ornamentada, forrada de ouro e prata e craveja de jóias. Pedindo silêncio, Set pôs-se em pé:
- Pensei em terminar esta festa - disse - com uma pequena competição. Estou certo que o meu querido irmão se juntará a nós. A arca, é ao mesmo tempo, um desafio e um prémio. Dá-la-ei a quem conseguir meter-se dentro dela. Se alguém o lograr, será sua.
Osíris sorriu ao ouvir isto. Reparara desde o início que todos os amigos de Set eram bastante avantajados, embora fosse demasiado educado para o dizer. O que ele não sabia era que Set os tinha escolhido precisamente por essa razão. Observou-os então, um após outro, a tentarem espremer-se para dentro da caixa e juntou-se ás gargalhadas, visto que tal se demonstrou impossível. Então chegou a vez de Osíris, o qual entrou sem dificuldade e deitou-se de costas. E, nesse momento, todos os 72 convidados saltaram para cima da arca, fecharam a tampa, envolveram-na com cordas e correntes e pregaram-na. A seguir, carregaram-na para fora do palácio e, ignorando os gritos de protesto abafados que vinham de dentro dela, lançaram-na ao Nilo.
O caixão - pois era nisso que a arca agora se transformara - foi levado pelo Nilo até ao mar. Por fim, foi dar à costa da Fenícia e pousou sob uma tamargueira. A árvore inclinou os ramos e envolveu a arca, puxando-o para dentro do seu tronco e aí permaneceu por muitos anos. Um dia, a tamargueira foi cortada por um rei local que precisava de um pilar para segurar o telhado do seu palácio. Mas quando o tronco foi colocado, descobriu-se que ele soltava um perfume maravilhoso que se sentia a muiltas milhas em redor, um cheiro a Verão, a mel e a flores. O fenómeno era tão extraordinário que a notícia se espalhou até chegar a Ísis. Devido aos seus conhecimentos de magia, concluiu que a árvore devia conter o corpo do marido e decidou recuperá-lo.
Entretanto Set, apoderara-se do trono do Egipto, reinando com crueldade onde Osíris apenas mostrara bondade, escravizando o povo e encorajando festas canibais.
Ísis não demorou a abrir o pilar e a remover a arca levando-a de volta para o Egipto e escondendo-a na ilha flutuante de Chemnis, no meio do Nilo. Aí permaneceu, banhando a arca com lágrimas, enquanto preparava os rituais fúnebres necessários. Mas Set encontrou a arca. Abrindo-a, sacou da espada e cortou o corpo de Osíris em 14 pedaços, espalhando-os pelo Egipto.
Ísis passou os dois anos seguintes à procura dos pedaços de Osíris, apenas conseguiu recuperar 13, o décimo quarto tinha sido comido por um caranguejo.
Usando todos os seus poderes mágicos, Ísis juntou os treze pedaços até que o corpo ficou completo. O processo foi denominado embalsamento e, daí em diante, todos os grandes faraós e os nobres mais ricos foram embalsamados.
Quando Ísis terminou o seu trabalho, Osíris despertou como que de um sono profundo e abraçou-a. Demasiado cansado, decidiu descer ao Mundo Inferior egípcio. E foi assim que coube a Horo, o seu filho, vingar a morte do pai, enterrando um arpão afiado no cérebro de Set.
Horo tornou-se faraó do Egipto, o último deus a reinar em forma humana. Osíris ficou com Ísis no Mundo Inferior, onde reinou sobre os mortos tão bondosa e sabiamente como outrora reinara sobre os vivos.

Lenda do Freixo de Espada à Cinta

Em tempos já distantes, nas eternas questiúnculas com seu filho o príncipe D. Afonso, el-Rei de Portugal D. Dinis, chegou um dia àquelas terras que hoje fazem parte do distrito de Bragança, quase na raia de Espanha.
Os correligionários do príncipe D. Afonso tinham cometido tropelias graves e D. Dinis viu-se obrigado a correr o Norte do reino, com os seus melhores cavaleiros, para castigar os prevaricadores e salvar os inocentes. Assim decorria a jornada, entre rancores e perseguições, inquietudes de alma e cansaços de corpo. Por tudo isso, talvez, ao passar junto de um grande freixo, plantado à beira do caminho e derramando em seu redor uma sombra de encantar, el-Rei D. Dinis segundo narra a velha lenda, sentiu-se subitamente desejoso de um merecido repouso. D. Dinis ficou sozinho junto do grande freixo, desmontou então e à vontade desentorpeceu os membros fatigados por tanta correria e luta. Desembaraçou-se da sua pesada espada e do cinto que a sustentava, prendendo-o ao próprio tronco do freixo. Estendeu-se preguiçosamente, encostou a cabeça ao freixo e adormeceu.
Sonhando, el-Rei D. Dinis viu de repente que se erguia junto dele, um velho de longas barbas brancas, trazendo à cinta a sua própria espada. O rei de Portugal perguntou:
- Mas... quem sois vós, ancião?... Que desejais de mim?
Em voz irreal, que mais parecia eco doutra voz distante, o vulto respondeu apenas:
- Sou o espírito vivo deste freixo, ao qual tu te encostaste... Aqui estou encantado para sempre, desde que morri... Tu hoje, porém, quebraste o encantamento e por isso aqui me vês. Sempre que um rei de Portugal pendure a sua espada no meu tronco... eu poderei viver, de novo, durante alguns momentos. Sou um velho rei visigodo. Sim, rei como tu, Dinis! E, como tu, também fui valente e temido. Conquistei terras e dominei povos... Um dia, porém, adormeci à sombra deste mesmo freixo a que ti te encostaste... E os inimigos surpreenderam-me assim... e mataram-me!
Num movimento instintivo, el-Rei de Portugal procurou imediatamente erguer-se e afastar-se. Mas a voz tremeu, como numa risada, e sentenciou:
- Não tenhas medo, Dinis! A ti não te farão a mesma coisa. Estamos aqui apenas os dois, e eu vim para te aconselhar. Sei, que no teu íntimo, o que desejas é fazer as pazes com o teu filho Afonso. Em grande parte, és tu o culpado de tudo, Dinis! Se desses mais ouvidos à Rainha tua esposa, se mais te guiasses pelos seus conselhos, talvez houvesse menos incompreensão e menos guerra.
D. Dinis sentiu vontade de aceder e concordar:
- Está bem! Passarei a dar melhor atenção ao que diz a Rainha, mas respondei-me, velho rei: como hei-de conseguir as tréguas com meu filho Afonso? Estou ansioso por saber!
E o vulto de grandes barbas brancas inclinou-se sobre ele e disse devagarinho:
- Escuta, Dinis... Escuta, porque é segredo.
E o velho misterioso fez ouvir no íntimo de el-rei de Portugal os seus sábios conselhos. Sem voz, sem palavras. Apenas em pensamento. E num dos seus impulsos habituais, el-rei D. Dinis quis erguer-se de novo, deixando o local onde se encontrava. nem ligou mais importância àquela voz estranha, que lhe dizia:
- Espera, Dinis! Não te alvoroces. Falta ensinar-te o resto... senão tudo voltará à mesma. Espera!
Mas, era tarde, de facto. Com a excitação dos seus próprios pensamentos, el-rei de Portugal já acordara. E viu-se de novo sozinho, junto do grande freixo. O velho desaparecera por completo. Por completo e para sempre.
- Meu Deus, é extraordinário como o velho rei visigodo se assemelhava a este freixo. Parecia até o próprio freixo de espada à cinta.
E tudo se passou conforme a profecia do sonho, D. Dinis conseguiu na verdade, umas tréguas com o filho, mas a paz não foi duradoira e a guerra entre ambos não tardou em recomeçar. E isso, afinal, porque D. Dinis não ouvira o resto dos conselhos do misterioso e bizarro espírito encantado do Freixo de Espada à Cinta - espírito também que não tornou a desencantar-se, porque nenhum outro rei de Portugal, voltou a pendurar a sua espada no grande freixo plantado à beira do caminho.


Lendas de Portugal

sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Kraken

De todos os monstros do oceano norte, o Kraken é um dos mais temidos. Quando vem à superfície, o seu dorso estende-se por 2,5 quilómetros em circunferência, parecendo, à primeira vista, uma ilha. Os seus tentáculos ondulantes atingem a altura dos mastros. Com eles, o Kraken enrola-se em redos dos barcos imprudentes e arranca os marinheiros do convés. Depois volta a mergulhar nas profundezas, arrastando as águas atrás de si num gigantesco redemoinho. O maior destes redemoinhos é o Maelstorm ao largo da costa da Noruega, que sugou muitos barcos para uma sepultura aquosa.
O mapa de Olaus Magnus dos mares do Norte retrata esta «maravilha da meia-noite» como um animal de longos tentáculos semelhante a uma árvore arrancada pelas raízes. Os pescadores dizem que um só olho do Kraken podia encher um barco pequeno e que a sua pupila é tão ardente que, de noite, parece uma fogueira no mar.

Centauro - O cavalo-homem da Tessália

Selvagem, mas sábio, o Centauro é um cavalo-homem: um homem da cintura para cima, com as pernas, corpo e cauda de cavalo. A natureza animal e humana desta criatura tendem a estar em conflito uma com a outra, tornando-o imprevisivelmente violento ou benevolente. Vive nas montanhas da Tessália.
Diz-se que os Centauros descendem de Ixião, filho do rei dos Lápitas e de uma nuvem com a forma da deusa Hera. O filho deles, o Centauro, acasalou com éguas, gerando os bárbaros cavalos-homem das montanhas. Estes animais são mais conhecidos pela sua batalha com os civilizados Lápitas.
Os Centauros posteriores foram governados por Quíron, que era famoso pela sua bondade e sabedoria e perito nas artes da música, medicina e tiro com setas. Quíron tornou-se o tutor de Aquiles, Hércules e outros heróis. Hércules matou acidentalmente a criatura bondosa com uma seta envenenada durante uma escaramuça com os Centauros. Anos depois, Hércules encontrou o seu próprio fim através da traição do Centauro Nesso. Este presenteou-o com uma camisa envenenada que se colou ao corpo do herói e o queimou até à morte.
Quíron está imortalizado como signo do Zodíaco (Sagitário) e como constelação. A constelação Centauro aparece nos céus do sul. O Centauro é também uma figura heráldica.

Esfinge - A criatura de mistérios e enigmas

A Esfinge (do grego, «atar», «estrangular»), é uma criatura enigmática com corpo de leão e cabeça de ser humano que vem do Egipto e da Grécia. A forma final do faraó egípcio, com o corpo do rei dos animais e a cabeça de rei humano. Uma figura colossal deste animal real guarda as pirâmides de Gizé. Esculpida em pedra, a Grande Esfinge tem 73 metros de comprimento e quase 21 metros de altura. Outras esfinges têm a cabeça de um carneiro (Criosesfinge) ou de um falcão (Hierocosfinge). Muitas das Esfinges egípcias são masculinas.
As Esfinges da Grécia são femininas. A primeira da sua espécie era um dos monstros filhos da ninfa-cobra Equidna que também deu à luz a Hidra de Lerna e a Quimera, que soprava fogo. A mais famosa descendente desta Esfinge foi a terrível criatura que os deuses enviaram da Etiópia para punir Tebas. Tinha corpo de leão com seios de mulher, cabeça feminina, asas de águia e cauda de serpente. Debruçada numa encosta no exterior da cidade, ela fazia parar todos os viajantes e fazia-lhes uma pergunta - «O que é que tem quatro pernas, duas pernas e três pernas e quanto mais pernas tem mais fraco é?». Estrangulava e devorava todos os que não respondessem ao enigma. Apenas um viajante a superou em astúcia. Foi Édipo, o futuro rei de Tebas. A resposta, disse, era o homem, que anda de gatas quando é bebé, caminha na juventude e na idade adulta e usa uma bengala na velhice. Derrotada, a Esfinge lançou-se violentamente do rochedo abaixo e morreu.

Sereias

Sereia vem do grego "prender", "puxar com uma corda".
As Sereias são criaturas sedutoras cujo canto suave promete a sabedoria ancestral e a realização de todos os desejos. Ao largo da costa da Itália, tocavam lira para acompanhar o seu cantar. Mas os ouvintes que sucubiam ao seu encantamento nunca regressavam a casa. Os marinheiros que adormeciam embalados pela sua música eram despedaçados. Aqueles que saltavam para o mar para se juntarem às cantoras afogavam-se nas ondas.
As primitivas sereias eram filhas de uma Musa, possuindo plumagem dourada e rosto de raparigas. Outras tinham pés de pássaro, a parte inferior do corpo coberta de penas e forma de mulher da cintura para cima. Algumas delas desafiaram as próprias Musas para um concurso de canto, mas as Musas venceram e arrancaram as penas das Sereias para usarem como coroas. As mulheres-pássaro, envergonhadas, retiraram-se para as suas ilhas desertas, que têm agora o seu nome.Jasão e os seus Argonautas aproximaram-se destes rochedos na sua viagem de regresso com o velo de ouro. Empoleiradas no porto, entre ossos cobertos com pedaços de carne, as Sereias saudaram o barco com as suas melodias sedutoras.
Os marinheiros pararam de remar para as ouvir. Antes que pudessem ser enfeitiçados, outro membro da tripulação, Orfeu, começou a tocar a lira que encantava toda a natureza. A sua canção seduziu os seus companheiros e uma brisa empurrou o barco para longe. As Sereias, desanimadas, atiraram-se ao mar, transformando-se em rochedos ao longo da costa.
O herói Ulisses também passou com o seu barco perto das Ilhas das Sereias, mas a feiticeira Circe tinha-o avisado do perigo. Desejando ouvir o canto das Sereias, ele tapou os ouvidos dos seus homens com cera de abelhas e atou-se a si próprio ao mastro. Enquanto a sua tripulação remava, ele ouviu o doce mas mortífero canto.
- Vem até nós para conheceres tudo o que irá acontecer na terra magnânima. - Cantavam as Sereias.
Ulisses pediu aos seus homens que soltassem as cordas que o prendiam, mas eles continuaram a remar, deixando as Sereias para trás.
Desde a Idade Média, as Sereias passaram a ter cauda de peixe e pés de falcão.
Mas a lenda diz mais...
Metade humana, metade peixe, as donzelas do mar têm cabeça e tronco de uma bela mulher e a parte inferior do corpo de um peixe. Esta criatura sedutora, de olhos azuis-esverdeados, senta-se numa rocha no mar e, segurando um espelho numa mão, penteia os seus longos cabelos com um pente de ouro. Usa o pente para dedilhar a lira e enfeitiça os marinheiros com a doçura do seu canto.O lado negro da beleza da Sereia, crueldade e vaidade... traz a desgraça a todos os que a vêem.

Dragões

O Dragão surgiu no princípio dos tempos e multiplicou-se em nomes e formas desde então. Conhecido por todos os povos da terra, é o maior de todos os animais.
No Ocidente o Dragão é o Drakon, (que significa “vista apurada”, “vigilante”), dos gregos. Os romanos chamavam-lhe Draco e os ingleses conhecem-no por Drake.
Os seus olhos vêem tudo. Muitos comem ervas venenosas e o seu hálito envenena o ar. Muitos guardam ciosamente tesouros nas profundezas da terra. Na cabeça de um Dragão está a Pedra de Dragão, uma brilhante pedra preciosa vermelha com poderes curativos. O sangue de um Dragão é um elixir miraculoso que sara as feridas graves e que permite ao vencedor do animal compreender a fala dos pássaros e de outros seres vivos. Quando misturadas com mel e azeite, a gordura do Dragão faz recuperar a vida.
O Dragão pode ser visto todas as noites na constelação Draco, que serpenteia através dos céus no hemisfério norte.
O Dragão da China é um poderoso mas benevolente governante do céu, da terra e do mar. É um dos quatro animais espirituais, um portador de boa sorte e a figura fundadora das famílias reais. É uma energia rítmica – rodopiando, girando e saltando alegremente entre as nuvens. O maior dos Dragões é Lung, senhor dos céus. Chiao é o Dragão supremo da terra. Os reis dragões, nos seus luminosos palácios subaquáticos, governam os quatro oceanos.O Drakon da Grécia, de olhar vigilante, guarda as nascentes e os tesouros sagrados. É uma criatura antiga da Terra que possui uma sabedoria ancestral, mas quem quer que pise o seu chão sagrado fá-lo por sua conta e risco.Nos países do Norte. O Wurm ou Wyrm (Verme), é um dos mais terríveis Dragões. Vive nas profundezas da terra, guardando ciosamente velhas pedras preciosas e ouro. O mais famoso foi o do rei inimigo guerreiro Beowulf. Este Dragão guardou um tesouro durante centenas de anos até que um escravo penetrou no seu covil enquanto dormia e fugiu com uma taça cheia de jóias. Depois de o Dragão ter saciado a sua sede de vingança sobre o povo da região, Beowulf enfrentou-o na sua caverna. A besta e o herói morreram juntos.
Raiada com todas as cores da terra e do céu, existe o mais belo dos Dragões, a Serpente Arco-Íris. Vivem no oceano e quando se movem, as ondas começam a rolar. Outras vivem na terra ou em lagos e rios. Durante as estações das chuvas, elas elevam-se para beber a humidade do ar e depois inclinam-se de novo para o solo para beber a água da terra. Estas criaturas cintilantes podem ser vistas em todo o mundo.

Fénix

Nascido aquando da criação e adorado em Heliópolis, no antigo Egipto, o Benu (hieróglifo egípcio, “brilhar”, “elevar-se”) é um pássaro de longas pernas semelhante a uma garça com uma crista de duas longas penas que saem da parte posterior da cabeça. É um pássaro eterno que, tal como o sol, renasce todas as manhãs após a sua viagem através da noite. Associado aos deuses do sol, acompanhava as almas dos mortos no barco de Rá na sua viagem através do Mundo dos Mortos.
No princípio do mundo, o Benu ergueu-se do mar primordial. O pássaro estava sobre um montículo, a primeira terra a aparecer das águas escuras. A primeira luz do sol brilhou sobre o pássaro e sobre o montículo e quando a criatura soltou um grito – o sopro da vida – o tempo começou. Os sacerdotes da nova raça humana construíram um templo no montículo de terra que emergiu do abismo. Neste Templo do Sol, na cidade chamada Heliópolis, colocaram uma pedra – benben – representando o lugar em que o deus-sol Áton surgiu sob a forma do pássaro Benu. O Benu guiava as almas na sua perigosa viagem em direcção a Oeste através do escuro Mundo dos Mortos para serem julgadas pelo deus Osíris. Aquelas que eram consideradas merecedoras embarcavam com o pássaro no barco do deus-sol até emergirem no leste, tal como o sol, na luz da vida eterna.
Heródoto chamou a este pássaro “Fénix”, e muitos dizem que a Fénix é uma nova forma do grande Benu de Heliópolis.
A Fénix eterna é espectáculo de cor. Em volta do pescoço tem um tufo de penas douradas, brilhantes como o sol, e as suas asas e as longas penas esvoaçantes da cauda têm todas as cores do arco-íris. O bico parece de vidro, os olhos assemelham-se a pedras preciosas e no alto da cabeça tem uma crista cintilante. Apenas uma Fénix vive no mundo de cada vez. O seu nome grego significa “carmesim”, “tamareira” e “fenícia”. A tamareira renova-se a si própria e a Fenícia é uma terra vermelha. A Fénix vive num paraíso terrestre no longínquo leste, na terra da Aurora. No seu alto ninho na mais alta das árvores, a Fénix ergue-se todas as manhãs, saudando o sol com as asas abertas e um canto suave. Dia após dia, banha-se nas nascentes, bebe o orvalho e vive no ar. Com o passar dos anos, a plumagem brilhante empalidece e, quando o pássaro sente que a morte se aproxima, colhe especiarias de cheiro doce e transporta-se para um lugar no deserto selvagem, onde constrói a sua pira numa única árvore tamareira. Na manhã seguinte, quando a luz do sol atinge a árvore, as especiarias libertam os seus óleos e a pira incendeia-se. O pássaro ergue-se no meio do fogo, atiçando as chamas com as asas, até, também ele, começar a arder e ser reduzido a cinzas. Então, ao anoitecer do terceiro dia, as cinzas atiçam-se e delas emerge um verme. Durante a noite, o verme toma de um pássaro. Crescem-lhe as penas e, na manhã seguinte, uma nova Fénix resplandecente ergue-se com o sol. O jovem pássaro junta as cinzas num ovo, transporta-o para Heliópolis e coloca o ovo-das-cinzas sobre o altar do Templo do Sol e parte para a sua morada no leste, aí continuando o seu ciclo de vida, morte e renascimento.

Alentejo

Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.
Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.
Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.«Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano. «Então por que é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... mas com quem?»
Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!
É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de Verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser Alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?

Manel

Idade Média

Graças às Universidades, a Idade Média foi uma época de grandes descobertas científicas e técnicas. Inventou-se, então, a charrua com relha, que substitui vantajosamente o arado antigo porque escavava mais fundo. Inventou-se a chaminé de onde o hábito de recensear a população pelo número de chaminés, os fogos. A Idade Média trouxe aos Chineses a bússola e a pólvora. Na mesma época, fundiram-se os primeiros canhões. Se existe um milagre grego, podemos falar também de um milagre medieval. A Idade Média foi superior à Antiguidade por causa dos direitos do homem. A escravatura subsistia, mas era apenas marginal. Os camponeses, os servos - não eram escravos: tinham muitos deveres, mas também tinham direitos. A maior parte dos homens da Idade Média era livre.
Mas, principalmente, a Cristandade medieval inventou a mulher, no século XIII.
A ideia da cortesia, do amor cortês, vem da corte das fortalezas. Os cavaleiros tinham aprendido a fazer a corte às mulheres, a seduzi-las, a obter os seus favores: a violação tornara-se um acto desprezível. Os romances de cavalaria são ilustrados por amores platónicos, de Lancelote do Lago a Dom Quixote.
Eis então a primeira civilização onde a mulher estuda. Ela não serve à mesa dos homens: preside a esta. Chega mesmo a designar o vencedor dos torneios. Todos os cavaleiros têm de render homenagem à dama dos seus pensamentos. As cartas de amor entre homens e mulheres escrevem-se, finalmente.
Além do mais, a Igreja procurou interditar o casamento precoce. A Grécia antiga desposava uma garota iletrada, com 13 anos. O notável medieval, uma rapariga da sua idade, muitas vezes culta. No mundo judaico-cristão a mulher era oprimida e ainda o é. No Islão velam-na, matam-na em bebé, na China.O exemplo que anunciou esta revolução (porque o foi, para a metade feminina da humanidade) consistiu no amor de Abelardo por Heloísa - se calhar era melhor dizer de Heloísa por Abelardo. Este era o maior professor do seu tempo e ensinava, nos primeiros anos do século XII, especialmente em Paris. Tinha 37 anos quando seduziu uma aluna de 17, Heloísa, em casa do tio onde esta habitava. Heloísa, de boas famílias e imensamente culta, lia latim, grego e hebreu. Tiveram um filho, Astrolábio, mas Abelardo quis que o casamento continuasse secreto. Furioso, o tio-tutor pagou a castradores de porcos para emascularem Abelardo (foi condenado por esse crime). O professor continuou o seu ensino e Heloísa tornou-se abadessa num convento. Continuaram a escrever um ao outro. A carta que se segue é uma missiva magnífica redigida por Heloísa, muito tempo depois. A dedicatória é sublime - e o texto cheio de elevação:
Ao seu senhor ou, deveria antes dizer, ao seu pai
Ao seu esposo ou, deveria dizer, ao seu irmão
Da sua serva ou, deveria antes dizer, da sua filha
Da sua esposa ou, deveria antes dizer, da sua irmã
Ao Abelardo, da Heloísa.
Se Augusto o senhor do Universo, me tivesse julgado digna de ser sua esposa, eu teria achado mais requintado poder ser chamada tua meretriz do que sua imperatriz.
Que rei, que filósofo poderia igualar a tua fama?
Que cidade não ferveria de excitação para te ver? Toda a gente se precipitava e te procurava seguir com os olhos, de pescoço estendido, quando tu te mostravas em público. Que mulher casada, que mulher por casar não te desejaria na tua ausência e não arderia na tua presença? Que rainha, que grande dama não teria ciúmes das minhas alegrias e do meu leito?
Tu possuis um dom que, em geral, falta completamente aos filósofos: sabes compor versos e cantá-los. Deixaste numerosas canções, conhecidas mais universalmente do que os tratados dos sábios, pelos próprios iletrados. Graças a elas, o povo conhece o teu nome. Como muitos desses versos cantavam os nossos amores, essas canções espalharam o meu nome, ao mesmo tempo que o teu, e desencadearam contra mim o ciúme de muitas mulheres.
Aquelas volúpias caras aos amantes que saboreámos juntos foram-me doces. Ainda hoje, não as posso expulsar da memória. Impõem-se aí com os desejos que as acompanham. Em plena liturgia, quando a oração deve ser mais pura, abandono-me então a elas. Suspiro pelos prazeres perdidos. Revivo-os...

É preciso recordar que esta carta foi escrita por uma abadessa. A religião medieval nada tinha de puritano. Foi um século feminino.

Atenas

Atenas era uma democracia.
Todos os cidadãos do sexo masculino com mais de 18 anos se reuniam na Agora para eleger uma assembleia, a boulê, que escolhia o governo. No entanto, Péricles, o mais célebre dos seus dirigentes, conseguiu continuar a ser o estratega durante 30 anos, fazendo-se eleger constantemente.
Péricles concedeu à sua cidade uma glória imensa. Foi ele que mandou reconstruir a urbe e edificar os monumentos da Acrópole - pelo escultor Fídias. Era uma arquitectura à escala humana e muito sapiente. No Pártenon, por exemplo, tudo está erigido em função da perspectiva. Apesar das aparências, poucas linhas rectas se acham ali: para parecer rectas, as colunas têm de se inclinar para o centro - e inclinam-se. As colunas que se destacam, tendo por fundo o céu, devem ser mais grossas do que as que estão defronte das paredes - e são-no. O chão, por exemplo, para parecer horizontal, deve ser curvo - e é-o. Para que se distingam todas, as colunas devem estar a uma distância desigual umas das outras - e estão-no.
Em Atenas, todos os jovens do sexo masculino iam à escola, ao liceu (o ginásio), e, depois faziam o serviço militar, que tinha funções de ensino superior, já que os Gregos separavam o físico do mental. Os Gregos inventaram o teatro e a filosofia. O mais célebre filósofo da História foi o ateniense Sócrates. Será condenado à morte, aos 62 anos, pelas suas ideias subversivas. Quando Sócrates ia ao teatro, nos degraus da bancada ficava cercado de génios: Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Tucídides - seus coevos.
Esses homens inventaram o humanismo. Diziam: Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses. Diziam também: O homem é a medida de todas as coisas. Antes deles, o mundo era assustador, angustiante (deuses com cabeças de monstros, sacríficios humanos), e a arquitectura opressiva, excepto em Creta, a sua mestra.O mito de Édipo mostra que são os primeiros a praticar a psicanálise. Olham a humanidade com olhos benevolentes. Os Gregos são os primeiros homens a admirar-se a si mesmos (Narciso), a acharem-se belos, a rivalizarem-se com os deuses (Prometeu). Já não têm medo do mundo: esforçam-se antes por lhe decifrar os mistérios, e andam bem perto de o fazer (Pitágoras, Euclides, Tales).
Em Atenas, o homem sente por fim que a Terra é a sua casa. A divisa de Atena, deusa de Atenas, Coragem e Cultura, seria caso para meditação neste nosso mundo actual que não aprecia a coragem física e despreza as humanidades. Lembremos que Sócrates teve por discípulo Platão, o qual terá por discípulo Aristóteles, o qual terá por discípulo Alexandre, o Grande.
No entanto, o quadro tem sombras.Nem todos os homens eram cidadãos. Havia escravos em Atenas. O próprio Aristóteles interrogava-se acerca da possibilidade de os escravos terem alma. O universalismo grego não abrangia toda a gente. Em particular, ignorava a mulher. Atenas era uma cidade sem mulheres.
Embora a instrução fosse obrigatória para os rapazes, a maior parte das raparigas - salvo as cortesãs - não sabia ler. Confinadas ao seu papel de reprodutoras, passvam a vida fechadas no gineceu. Nestas condições, os homens não podiam gostar das raparigas que a família lhes dava em casamento - ainda por cima apenas pubescentes.
O amor para os Gregos era homossexual. Não se trata de fazer um juízo moral, mas de acentuar a ausência feminina. Uma civilização pode ser harmoniosa ignorando metade da humanidade?As raras mulheres evoluídas eram cortesãs, como a companheira de Péricles, ou lésbicas (a partir do nome da ilha grega de Lesbos).
Enfim, a cidade grega onde os habitantes eram muitíssimo mais cultos do que os súbditos dos Impérios, possuía uma sombra que fará a sua infelicidade.
Apesar dessas sombras, a Grécia Antiga iluminou o mundo como um sol. As sombras da escravatura e do confinamento da mulher não devem fazer esquecer os explendores da Acrópole.

Lilith, a Lua Negra

O que é que se esconde por detrás deste nome estranho?
Lilith, um mito que persegue a primeira narrativa da Humanidade.
Lilith, considerada a Lua Negra pois rege os momentos-chave da nossa vida.
Lilith! Um nome que fez tremer gerações.
Lilith, a mulher portadora de todas as faltas femininas.
A sua história é velha como o mundo.
Quando Deus criou Adão, fê-lo "perfeito", isto é, macho e fêmea.
Depois, cortou-o ao meio, chamou a esta nova metade Lilith e deu-a em casamento a Adão.
Mas, oh!, surpresa, Lilith recusou! Ela não queria ser oferecida a ele, tornar-se desigual, inferior. E Lilith fugiu...
Deus tomou então uma costela de Adão e criou Eva, mulher submissa, dócil, em posição de inferioridade perante o homem...
Vocês conhecem o resto...
A revolta, a insubmissão, a vontade de fazer explodir os preconceitos são os símbolos de Lilith, a Lua Negra. A Lua simboliza o nosso lado feminino, doce, sonhador e maternal. A Lua é Eva. No lado oposto, a Lua Negra impele-nos à desobediência, à separação.
A luz que a Lua Negra projecta sobre a nossa vida é particularmente límpida, crua, se não mesmo cruel...
Então, todos os absurdos, todas as carências, todos os erros aparecem. E nesta realidade posta a nu, sentimo-nos terrivelmente sós.
Já nada está bem... Nesse momento é preciso tomar imperativamente uma decisão.
Uma decisão pesada de consequências, pois trata-se de uma questão de ruptura, de pôr coisas em causa, de alteração radical.
Temos de cortar com qualquer coisa, com alguém ou mesmo com uma parte da nossa personalidade. Mas o papel da Lua Negra é igualmente positivo. Se tomarmos esta decisão, ascenderemos a uma nova forma de vida, a uma nova personalidade, mais rica, mais livre. Ao aceitarmos esta "dilaceração", recompomos as forças, ganhamos confiança em nós, atingimos a autonomia. Em contrapartida, se nos recusarmos a cortar, então... asfixiamos.
Como para Lilith, a nossa conquista de liberdade tem esse preço...