Narciso era o mais belo jovem de toda a Grécia antiga. O profeta cego Tirésias profetizara que ele viveria por muitos anos, desde que nunca se conhecesse a si próprio. Infelizmente, Narciso conhecia-se até bem de mais. Todas as manhãs, quando acordava, a primeira coisa que fazia era olhar-se no seu grande espelho. Passava uma das mãos pelos seus longos cabelos louros. Piscava um dos seus brilhantes olhos azuis. Flectia os músculos e sorria para si próprio com uns dentes brancos perfeitos.Metade das raparigas da região estava apaixonada por ele e o problema era ele ser de tal modo tão vaidoso que destroçava corações a torto e a direito.
Uma ninfa, de nome Eco, apaixonou-se por Narciso. A Eco fora retirada a faculdade da fala e condenada a repetir sempre as últimas palavras de quem falasse com ela. Por isso, quando tentou dizer a Narciso o que sentia por ele, apenas conseguiu usar as palavras dele. O resultado foi desastroso.
Encontrou-o um dia numa floresta.
- Olá! - saudou-a Narciso. - Presumo que sejas mais uma dessas mulheres que me acham tão atraente.
- Tão atraente - respondeu Eco.
- Logo vi - disse Narciso. - Pois bem, estás a perder o teu tempo, receio bem.
- Receio bem - disse Eco.
- E bem podes recear - continuou Narciso. - Para ser muito sincero, nem que fosses a própria Afrodite eu te deixaria vir para o pé de mim.
- Para o pé de mim! - exclamou Eco.
- És surda ou quê? Acabei de te dizer que não. Vai-te embora.
- Embora! - gemeu Eco.
Compreendendo que não havia esperança, a ninfa fugiu do bosque, com as lágrimas a correr pelo rosto. Passou o resto da sua curta vida com o coração destroçado e sozinha, num vale desolado, a viver numa gruta. A sua carne desapareceu. Os ossos tornaram-se em pedra. Em breve restou apenas a sua voz - e se alguma vez você se encontrar num vale ou numa gruta e chamar, ainda a ouvirá responder.
Narciso continuou o seu caminho. Mas aconteceu que Afrodite ouvira as suas últimas palavras para Eco e vira o que acontecera. E zangou-se. Afrodite era a deusa do amor e Narciso, por palavras e actos, tornara-se inimigo do amor. Lançou-lhe uma maldição que o faria apaixonar-se por si próprio.
No caminho para casa, chegou-se ao pé de uma lagoa de água cristalina, numa clareira da floresta. Ajoelhou-se para beber. Foi então que viu aquele que era - aos seus olhos - o mais belo jovem do mundo. Ficou de boca aberta. O rapaz também. Piscou os olhos de espanto. O rapaz também. Sorriu. O rapaz sorriu-lhe. Apaixonara-se pelo seu próprio reflexo.
No dia seguinte os seus pais - que o tinham procurado por todo o lado - encontraram-no ainda sentado junto da lagoa.
- Narciso! - exclamaram. - Que estás a fazer?
- Chiu! - murmurou Narciso. Uma lágrima solitária brotou-lhe do canto do olho. - Podem assustá-lo. É tão belo... mas tão cruel. Quando eu tento tocar-lhe ou beijá-lo ele foge de mim. - Estendeu a mão e tocou a superfície da água e, obviamente, o reflexo estremeceu e desapareceu. - Mas volta pouco depois - continuou Narciso, numa voz suave e distante. - Vejam! Aí está ele! Não tem uns olhos lindos?
Apesar dos rogos dos pais, Narciso recusou-se a sair dali, fitando em silêncio o seu próprio reflexo. Não comia nem bebia. O seu tormento era tanto maior quanto, embora o objecto do seu amor estivesse apenas a alguns centímetros dele, não poderiam nunca tocar-se, não poderiam nunca encontrar-se.
Por fim, a dor tornou-se demasiado grande para ele. Parecia-lhe que o rapaz da lagoa sofria também, pois tinha o rosto terrivelmente magro e os olhos inchados e vermelhos.
- Fiz-te sofrer pelo menos tanto quanto tu me fizeste sofrer a mim - murmurou Narciso. Com a mão, procurou o punhal que trazia no cinturão. - Não te farei sofrer mais.
Enterrou o punhal no coração. Soltou um grito. O rapaz gritou. E algures, longe dali, Eco gritou também.
Narciso morreu. E Afrodite, sentindo pena dele transformou o seu corpo numa flor como recordação do que acontecera. E ainda hoje se podem encontrar as flores do narciso crescendo livremente nas florestas e desabrochando nas margens de uma lagoa silenciosa.
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