sexta-feira, 20 de junho de 2008

Atenas

Atenas era uma democracia.
Todos os cidadãos do sexo masculino com mais de 18 anos se reuniam na Agora para eleger uma assembleia, a boulê, que escolhia o governo. No entanto, Péricles, o mais célebre dos seus dirigentes, conseguiu continuar a ser o estratega durante 30 anos, fazendo-se eleger constantemente.
Péricles concedeu à sua cidade uma glória imensa. Foi ele que mandou reconstruir a urbe e edificar os monumentos da Acrópole - pelo escultor Fídias. Era uma arquitectura à escala humana e muito sapiente. No Pártenon, por exemplo, tudo está erigido em função da perspectiva. Apesar das aparências, poucas linhas rectas se acham ali: para parecer rectas, as colunas têm de se inclinar para o centro - e inclinam-se. As colunas que se destacam, tendo por fundo o céu, devem ser mais grossas do que as que estão defronte das paredes - e são-no. O chão, por exemplo, para parecer horizontal, deve ser curvo - e é-o. Para que se distingam todas, as colunas devem estar a uma distância desigual umas das outras - e estão-no.
Em Atenas, todos os jovens do sexo masculino iam à escola, ao liceu (o ginásio), e, depois faziam o serviço militar, que tinha funções de ensino superior, já que os Gregos separavam o físico do mental. Os Gregos inventaram o teatro e a filosofia. O mais célebre filósofo da História foi o ateniense Sócrates. Será condenado à morte, aos 62 anos, pelas suas ideias subversivas. Quando Sócrates ia ao teatro, nos degraus da bancada ficava cercado de génios: Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Tucídides - seus coevos.
Esses homens inventaram o humanismo. Diziam: Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses. Diziam também: O homem é a medida de todas as coisas. Antes deles, o mundo era assustador, angustiante (deuses com cabeças de monstros, sacríficios humanos), e a arquitectura opressiva, excepto em Creta, a sua mestra.O mito de Édipo mostra que são os primeiros a praticar a psicanálise. Olham a humanidade com olhos benevolentes. Os Gregos são os primeiros homens a admirar-se a si mesmos (Narciso), a acharem-se belos, a rivalizarem-se com os deuses (Prometeu). Já não têm medo do mundo: esforçam-se antes por lhe decifrar os mistérios, e andam bem perto de o fazer (Pitágoras, Euclides, Tales).
Em Atenas, o homem sente por fim que a Terra é a sua casa. A divisa de Atena, deusa de Atenas, Coragem e Cultura, seria caso para meditação neste nosso mundo actual que não aprecia a coragem física e despreza as humanidades. Lembremos que Sócrates teve por discípulo Platão, o qual terá por discípulo Aristóteles, o qual terá por discípulo Alexandre, o Grande.
No entanto, o quadro tem sombras.Nem todos os homens eram cidadãos. Havia escravos em Atenas. O próprio Aristóteles interrogava-se acerca da possibilidade de os escravos terem alma. O universalismo grego não abrangia toda a gente. Em particular, ignorava a mulher. Atenas era uma cidade sem mulheres.
Embora a instrução fosse obrigatória para os rapazes, a maior parte das raparigas - salvo as cortesãs - não sabia ler. Confinadas ao seu papel de reprodutoras, passvam a vida fechadas no gineceu. Nestas condições, os homens não podiam gostar das raparigas que a família lhes dava em casamento - ainda por cima apenas pubescentes.
O amor para os Gregos era homossexual. Não se trata de fazer um juízo moral, mas de acentuar a ausência feminina. Uma civilização pode ser harmoniosa ignorando metade da humanidade?As raras mulheres evoluídas eram cortesãs, como a companheira de Péricles, ou lésbicas (a partir do nome da ilha grega de Lesbos).
Enfim, a cidade grega onde os habitantes eram muitíssimo mais cultos do que os súbditos dos Impérios, possuía uma sombra que fará a sua infelicidade.
Apesar dessas sombras, a Grécia Antiga iluminou o mundo como um sol. As sombras da escravatura e do confinamento da mulher não devem fazer esquecer os explendores da Acrópole.

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