Graças às Universidades, a Idade Média foi uma época de grandes descobertas científicas e técnicas. Inventou-se, então, a charrua com relha, que substitui vantajosamente o arado antigo porque escavava mais fundo. Inventou-se a chaminé de onde o hábito de recensear a população pelo número de chaminés, os fogos. A Idade Média trouxe aos Chineses a bússola e a pólvora. Na mesma época, fundiram-se os primeiros canhões. Se existe um milagre grego, podemos falar também de um milagre medieval. A Idade Média foi superior à Antiguidade por causa dos direitos do homem. A escravatura subsistia, mas era apenas marginal. Os camponeses, os servos - não eram escravos: tinham muitos deveres, mas também tinham direitos. A maior parte dos homens da Idade Média era livre.Mas, principalmente, a Cristandade medieval inventou a mulher, no século XIII.
A ideia da cortesia, do amor cortês, vem da corte das fortalezas. Os cavaleiros tinham aprendido a fazer a corte às mulheres, a seduzi-las, a obter os seus favores: a violação tornara-se um acto desprezível. Os romances de cavalaria são ilustrados por amores platónicos, de Lancelote do Lago a Dom Quixote.
Eis então a primeira civilização onde a mulher estuda. Ela não serve à mesa dos homens: preside a esta. Chega mesmo a designar o vencedor dos torneios. Todos os cavaleiros têm de render homenagem à dama dos seus pensamentos. As cartas de amor entre homens e mulheres escrevem-se, finalmente.
Além do mais, a Igreja procurou interditar o casamento precoce. A Grécia antiga desposava uma garota iletrada, com 13 anos. O notável medieval, uma rapariga da sua idade, muitas vezes culta. No mundo judaico-cristão a mulher era oprimida e ainda o é. No Islão velam-na, matam-na em bebé, na China.O exemplo que anunciou esta revolução (porque o foi, para a metade feminina da humanidade) consistiu no amor de Abelardo por Heloísa - se calhar era melhor dizer de Heloísa por Abelardo. Este era o maior professor do seu tempo e ensinava, nos primeiros anos do século XII, especialmente em Paris. Tinha 37 anos quando seduziu uma aluna de 17, Heloísa, em casa do tio onde esta habitava. Heloísa, de boas famílias e imensamente culta, lia latim, grego e hebreu. Tiveram um filho, Astrolábio, mas Abelardo quis que o casamento continuasse secreto. Furioso, o tio-tutor pagou a castradores de porcos para emascularem Abelardo (foi condenado por esse crime). O professor continuou o seu ensino e Heloísa tornou-se abadessa num convento. Continuaram a escrever um ao outro. A carta que se segue é uma missiva magnífica redigida por Heloísa, muito tempo depois. A dedicatória é sublime - e o texto cheio de elevação:
Ao seu senhor ou, deveria antes dizer, ao seu pai
Ao seu esposo ou, deveria dizer, ao seu irmão
Da sua serva ou, deveria antes dizer, da sua filha
Da sua esposa ou, deveria antes dizer, da sua irmã
Ao Abelardo, da Heloísa.
Se Augusto o senhor do Universo, me tivesse julgado digna de ser sua esposa, eu teria achado mais requintado poder ser chamada tua meretriz do que sua imperatriz.
Que rei, que filósofo poderia igualar a tua fama?
Que cidade não ferveria de excitação para te ver? Toda a gente se precipitava e te procurava seguir com os olhos, de pescoço estendido, quando tu te mostravas em público. Que mulher casada, que mulher por casar não te desejaria na tua ausência e não arderia na tua presença? Que rainha, que grande dama não teria ciúmes das minhas alegrias e do meu leito?
Tu possuis um dom que, em geral, falta completamente aos filósofos: sabes compor versos e cantá-los. Deixaste numerosas canções, conhecidas mais universalmente do que os tratados dos sábios, pelos próprios iletrados. Graças a elas, o povo conhece o teu nome. Como muitos desses versos cantavam os nossos amores, essas canções espalharam o meu nome, ao mesmo tempo que o teu, e desencadearam contra mim o ciúme de muitas mulheres.
Aquelas volúpias caras aos amantes que saboreámos juntos foram-me doces. Ainda hoje, não as posso expulsar da memória. Impõem-se aí com os desejos que as acompanham. Em plena liturgia, quando a oração deve ser mais pura, abandono-me então a elas. Suspiro pelos prazeres perdidos. Revivo-os...
É preciso recordar que esta carta foi escrita por uma abadessa. A religião medieval nada tinha de puritano. Foi um século feminino.
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