Em tempos já distantes, nas eternas questiúnculas com seu filho o príncipe D. Afonso, el-Rei de Portugal D. Dinis, chegou um dia àquelas terras que hoje fazem parte do distrito de Bragança, quase na raia de Espanha.Os correligionários do príncipe D. Afonso tinham cometido tropelias graves e D. Dinis viu-se obrigado a correr o Norte do reino, com os seus melhores cavaleiros, para castigar os prevaricadores e salvar os inocentes. Assim decorria a jornada, entre rancores e perseguições, inquietudes de alma e cansaços de corpo. Por tudo isso, talvez, ao passar junto de um grande freixo, plantado à beira do caminho e derramando em seu redor uma sombra de encantar, el-Rei D. Dinis segundo narra a velha lenda, sentiu-se subitamente desejoso de um merecido repouso. D. Dinis ficou sozinho junto do grande freixo, desmontou então e à vontade desentorpeceu os membros fatigados por tanta correria e luta. Desembaraçou-se da sua pesada espada e do cinto que a sustentava, prendendo-o ao próprio tronco do freixo. Estendeu-se preguiçosamente, encostou a cabeça ao freixo e adormeceu.
Sonhando, el-Rei D. Dinis viu de repente que se erguia junto dele, um velho de longas barbas brancas, trazendo à cinta a sua própria espada. O rei de Portugal perguntou:
- Mas... quem sois vós, ancião?... Que desejais de mim?
Em voz irreal, que mais parecia eco doutra voz distante, o vulto respondeu apenas:
- Sou o espírito vivo deste freixo, ao qual tu te encostaste... Aqui estou encantado para sempre, desde que morri... Tu hoje, porém, quebraste o encantamento e por isso aqui me vês. Sempre que um rei de Portugal pendure a sua espada no meu tronco... eu poderei viver, de novo, durante alguns momentos. Sou um velho rei visigodo. Sim, rei como tu, Dinis! E, como tu, também fui valente e temido. Conquistei terras e dominei povos... Um dia, porém, adormeci à sombra deste mesmo freixo a que ti te encostaste... E os inimigos surpreenderam-me assim... e mataram-me!
Num movimento instintivo, el-Rei de Portugal procurou imediatamente erguer-se e afastar-se. Mas a voz tremeu, como numa risada, e sentenciou:
- Não tenhas medo, Dinis! A ti não te farão a mesma coisa. Estamos aqui apenas os dois, e eu vim para te aconselhar. Sei, que no teu íntimo, o que desejas é fazer as pazes com o teu filho Afonso. Em grande parte, és tu o culpado de tudo, Dinis! Se desses mais ouvidos à Rainha tua esposa, se mais te guiasses pelos seus conselhos, talvez houvesse menos incompreensão e menos guerra.
D. Dinis sentiu vontade de aceder e concordar:
- Está bem! Passarei a dar melhor atenção ao que diz a Rainha, mas respondei-me, velho rei: como hei-de conseguir as tréguas com meu filho Afonso? Estou ansioso por saber!
E o vulto de grandes barbas brancas inclinou-se sobre ele e disse devagarinho:
- Escuta, Dinis... Escuta, porque é segredo.
E o velho misterioso fez ouvir no íntimo de el-rei de Portugal os seus sábios conselhos. Sem voz, sem palavras. Apenas em pensamento. E num dos seus impulsos habituais, el-rei D. Dinis quis erguer-se de novo, deixando o local onde se encontrava. nem ligou mais importância àquela voz estranha, que lhe dizia:
- Espera, Dinis! Não te alvoroces. Falta ensinar-te o resto... senão tudo voltará à mesma. Espera!
Mas, era tarde, de facto. Com a excitação dos seus próprios pensamentos, el-rei de Portugal já acordara. E viu-se de novo sozinho, junto do grande freixo. O velho desaparecera por completo. Por completo e para sempre.
- Meu Deus, é extraordinário como o velho rei visigodo se assemelhava a este freixo. Parecia até o próprio freixo de espada à cinta.
E tudo se passou conforme a profecia do sonho, D. Dinis conseguiu na verdade, umas tréguas com o filho, mas a paz não foi duradoira e a guerra entre ambos não tardou em recomeçar. E isso, afinal, porque D. Dinis não ouvira o resto dos conselhos do misterioso e bizarro espírito encantado do Freixo de Espada à Cinta - espírito também que não tornou a desencantar-se, porque nenhum outro rei de Portugal, voltou a pendurar a sua espada no grande freixo plantado à beira do caminho.
Lendas de Portugal
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