domingo, 22 de junho de 2008

Aracne - O Desafio de Tecelagem

Aracne era uma jovem da Meónia. Tornou-se famosa no seu país devido à sua extraordinária habilidade para tecer. Vê-la tecer, com os dedos a dançar sobre o desenho, era, por si só, um prazer. Quer ela estivesse a fazer girar o fuso com um simples toque do polegar ou a bordar o tecido já acabado, ninguém conseguia tirar os olhos dela.
Infelizmente, era um pouco menos dotada com as virtudes da modéstia, humildade e generosidade. Era malcriada com a mãe, agressiva com as criadas e geralmente teimosa e antipática. Mas foi a sua arrogância que a perdeu.
- Nenhum deus consegue tecer como eu - dizia - nem mesmo Atena. Comparada comigo, a chamada deusa da sabedoria não passa de uma tosca, de uma trapalhona de dedos gordos. Aposto que ela tem ciúmes de mim.
Estas palavras eram duplamente insensatas. Primeiro, porque fora Atena a deusa que lhe dera aquela habilidade. E, em segundo lugar, ela costumava reagir com bastante severidade a insultos como estes. Atena era uma amiga terna e atenciosa, mas era uma terrível inimiga.
Mas, Aracne continuou, descuidadamente.
- Aposto que Atena não era capaz de competir comigo. Teria muito medo de perder, especialmente com uma simples mortal. Mas, às tantas, se calhar há um pouco de deusa em mim.
Quando estas palavras lhe saíram da boca, uma velha, que entrara na sala sem que ninguém a ouvisse, deu alguns passos em frente, apoiando-se numa bengala retorcida. Era mesmo muito velha, tinha o cabelo muito branco, a pele muito flácida e os olhos baços e cobertos de pústulas.
- Uh! - exclamou Aracne. - Quem és tu, velha?
- Não devias fazer troça da velhice - disse a velha -, pois ela traz consigo a experiência. Escuta agora a voz da experiência, Aracne. Está muito certo que te consideres a melhor fiandeira entre os mortais. Talvez o sejas. Mas não está certo comparares-te com a deusa Atena e devias pedir-lhe perdão. Se lho pedires, ela perdoar-te-á. Se não o fizeres, quem sabe o que ela te fará.
Aracne irritou-se. Estava a tecer quando foi interrompida, mas agora parou, levantou-se e empurrou rudemente a velha contra a parede.
- Sabes qual é o teu problema? - disse ela. - Estás velha! Estás senil! Se Atena fosse assim tão esperta, teria vindo aqui ela mesma. E mesmo assim eu não pediria perdão. Punha-me a tecer... e, digo-te, havia de lhe demonstrar muitas coisas.
-Muito bem - disse a velha. - Eis a tua oportunidade.
E de repente ergueu o braço, houve uma explosão de luz e transformou-se instantaneamente. Surgiu uma mulher alta, vestida com uma armadura, com uma lança numa das mãos e um escudo na outra. Um elmo de cinco pontas cobria-lhe a cabeça e à sua volta parecia irradiar poder puro.
- Desafiaste-me - disse Atena, pois era, evidentemente, a própria deusa. - E eu vim. Em breve te vais arrepender.
Aracne apenas sorriu.
- Não me arrependo de nada!
E assim, enquanto a mãe de Aracne observava, pálida e com os lábios apertados, foram instalados dois teares em cantos opostos da sala. A deusa sentou-se num, a morta no outro, de costas uma para a outra, para que nenhuma delas pudesse ver o que a outra fazia.
- A velocidade deve contar tanto como a técnica - disse Atena. - Paramos ao pôr do Sol. Nessa altura compararemos o que fizemos.
Foi a mais estranha corrida que jamais se disputou. As adversárias esticaram os fios nos teares, prenderam as armações às traves mestras, separaram a urdidura, pegaram nas lançadeiras para tecer os fios cruzados... E gradualmente começaram a formar-se dois quadros.
Aracne teceu uma tapeçaria chamada Os Amores dos Deuses. Representava Zeus como um touro seduzindo Europa; como um cisne nos braços de Leda e como uma chuva de moedas de ouro, caindo no colo de Dánae. Havia Posídon, como um touro, como um carneiro e como um rio - sempre como adúltero. Havia Apolo, disfarçado de humilde pastor para iludir uma simples camponesa, Isse. E havia até o ébrio deus do vinho, Dionisio, que se transformara num cacho de uvas para chegar aos lábios da mulher que ele amava. Mostrava os deuses na maior ignomínia.
O tema de Atena era muito diferente, aí estava Zeus mas revelado em plena glória como rei do Olimpo, com um raio na mão e uma águia empoleirada por detrás do trono. Posídon erguia-se com o seu tridente, golpeando uma rocha para fazer brotar uma cascata borbulhante. A tapeçaria chamava-se O Poder dos Deuses. Mas em cada um dos quatro cantos da sua obra a deusa acrescentara cenas diferentes: cenas que deveriam ter posto Aracne de sobreaviso sobre o terrível perigo que corria, se ela tivesse sido capaz de o ver. Mostravam castigos que os deuses tinham infligido a mortais que se tinham atrevido a cair no seu desfavor. Ali estava Ródope, transformado numa montanha de gelo, Antígona e a rainha dos pigmeus, ambas transformadas em pássaros, Cíniras vertendo lágrimas amargas nos braços das suas filhas mortas.
Atena terminou a sua obra bordando a orla com ramos de oliveira, o símbolo da paz.
O Sol pôs-se e a competição terminou. As duas adversárias pararam e viraram-se de frente uma para a outra. Atena percorreu com o olhar Os Amores dos Deuses.
- Não é bem assim que um mortal deveria representar os Olimpianos - observou ela. - Mas a obra está perfeita.
- É melhor que a tua - disse Aracne.
Então a deusa da sabedoria e da guerra irritou-se porque, apesar de espantada e revoltada, não podia negar que Aracne tinha razão. A mortal tinha-a vencido na sua própria arte. Vendo Atena tão furiosa, Aracne desatou à gargalhada, faendo ecoar aquele som agudo pela sala. Mas a sua mãe tremeu, vendo o rosto de Atena empalidecer.
Erguendo a sua lançadeira, golpeou Aracne com força na testa, repetidamente. Aracne gritou e caiu no chão. Mas a deusa ainda não terminara. Fez com um fio um nó corredio, passou-o à volta do pescoço de Aracne e, enquanto a malvada gorgolejava e grunhia, apertou-o, puxando-a para cima para a enforcar numa trave.
Foi então que a mãe de Aracne exclamou:
- Grande Atena! Perdoa a minha filhinha. Ela não sabia o que estava a fazer. Ela não quer ofender. Ñão podes matá-la. Suplico-te!
Então, o coração de Atena abrandou.
- Poupo-te a vida, peste! Mas assim vais ficar por toda a eternidade. Assim ficarão todas as tuas filhas. É este o castigo da tua insolência e da tua vaidade.
Aspergiu-a com um raminho de ervas preparadas por Hécate, a feiticeira, e, no momento em que as ervas tocaram em Aracne, caiu-lhe todo o cabelo, logo seguido do nariz e das orelhas. A sua cabeça encolheu, o seu corpo dobrou-se sobre si próprio, as pernas e os braços desapareceram. Os dedos ficaram colados aos flancos para servirem de pernas. Mas agora eram mais finos e peludos.
E tal como Atena ordenara, foi assim que Aracne ficou. Continuou pendurada acima do chão. E ainda continua a tecer maravilhosamente - embora não exactamente da mesma maneira.
Aracne fora transformada numa aranha.

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