sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Pele de velha

Era uma vez um rei que tinha três filhas.
Foi à feira e antes de partir perguntou às filhas que presente queriam. Uma disse um lenço, outra um par de botas, e a terceira disse um cartucho de sal. As duas irmãs mais velhas, que não podiam ver a mais nova, disseram ao pai:
- Sabeis porque vos pediu o sal, aquela velhaca? Porque quer pôr-vos os couratos de salmoura.
- Ah, sim! - disse o pai. - Corro-a de casa para fora. - E assim fez.
Posta fora de casa, com a sua ama de leite, com um saquinho de moedas de ouro, a pobre rapariga não sabia para onde ir. Todos os jovens que encontrava a aborreciam, e então a ama teve uma ideia. Encontraram um funeral, de uma velha que morrera com cem anos, e a ama perguntou ao coveiro:
- Vendeis-nos a pele da velha?
Teve de regatear um bom bocado, mas conseguiu. A ama fê-la curtir, coseu-a em pano de cambraia e fez entrar detro dela a rapariga. E todos se admiravam ao ver aquela velha centenária que falava com voz argentina e camunhava desembaraçada.
Encontraram o filho do rei da terra vizinha.
E ele:
- Avozinha, quantos anos tendes?
E a rapariga, toda risonha:
- Eu? Cento e quinze!
- Caramba! - disse o filho do rei. - E donde sois?
- Da minha terra.
- E os vossos pais?
- São o meu pai e a minha mãe.
- E que ofício fazeis?
- Ando a passear.
O filho do rei divertia-se e disse:
- Levemos esta velha para o palácio; enquanto viver far-nos-à alegres.
E assim ficou a viver no palácio real e o filho do rei quando não tinha nada que fazer ia conversar com a velha e divertir-se com as respostas dela.
Para estar entretida a rainha deu-lhe linho para fiar. A rapariga, fechou-se à chave, tirou a pele, e fiou aquele linho que era uma maravilha. O filho do rei, a rainha e toda a corte ficaram de boca aberta ao verem que uma velha decrépita, trémula e meia cega pudera fazer tão bem aquele trabalho.
A rainha experimentou dar-lhe uma camisa. E ela, quando ficou sozinha, cortou e coseu a camisa toda em pesponto, e no peito bordou umas florinhas de ouro como nunca se tinham visto outras iguais. Os outros já não sabiam o que pensar. Mas o filho do rei suspeitou de que ali havia marosca, e quando a velha se fechou no quarto foi espreitar pelo buraco da fechadura. E o que viu? A velha tirava a pele e por baixo havia uma rapariga jovem e bela como um olho de sol. O filho do rei, sem hesitar, deitou abaixo a porta e abraçou a rapariga que toda envergonhada, tentava cobrir-se.
E a rapariga contou-lhe quem era e o que lhe tinha acontecido. Logo se marcaram as festas para o casamento e convidaram-se todos os parentes próximos e afastados. Veio também o pai da noiva, mas não a reconheceu, assim vestida com véus e coroas. A noiva mandara conzinhar para o pai iguarias à parte, todas sem sal, menos o assado. Enquanto todos comiam, o pai da noiva não conseguiu engolir a sopa, mal provou o cozido e deixou o peixe todo no prato.
- Não tenho fome. - dizia. Mas quando veio o assado gostou tanto que o repetiu duas vezes. A filha perguntou-lhe porque só tinha comido o assado. O rei respondeu que achara toda a outra comida insossa. Disse a filha:
- Vedes como é má a comida sem sal? Por isso é que a vossa filha pediu o sal quando fostes à feira, e aquelas pérfidas das minhas irmãs vos disseram que era para vos pôr os couratos em salmoura...
O pai então reconheceu a filha, abraçou-a, pediu-lhe perdão e castigou as irmãs invejosas.
Lendas do Mundo


sábado, 18 de Abril de 2009

Lenda da Moura e do Touro

Na antiga vila de Messejana, conquistada aos Mouros por D. Sancho II, perdurava ainda o perfume do mistério das mouras que por lá tinham passado. Quando os rapazes passeavam na estrada, cantando à luz prateada do luar, as suas canções dolentes assemelhavam-se às toadas mouriscas de distantes amores perdidos.
Rosa era a rapariga mais bonita e travessa do lugar. Todos a requestavam. Todos a queriam. Mas ela preferira o seu António. E como acontece em muitas das histórias populares, Rosa e António casaram e foram muito felizes. Viviam na Horta do Cabo. António trabalhava no campo. Rosa lavava a roupa das pessoas mais abastadas. E à noite, quando o tempo permitia, cantavam canções dolentes de amores distantes, perdidos...
Certa manhã, quando Rosa estava a lavar a roupa num tanque da quinta, ouviu uma voz estranha que a sobressaltou. Chamava pelo seu nome. Era uma voz de mulher, fina, cariciosa. Assustou-se e perguntou: - Quem me chama?
Voltou a voz, serena: - Sou eu, Rosa... Estou aqui, no castanheiro...
Rosa levantou o olhar e estremeceu. No castanheiro em frente, estava uma jovem de singular beleza. Os cabelos cobriam-lhe os ombros, e o corpo, da cintura para baixo, não tinha forma humana, mas o aspecto de uma grande serpente que se enrolava no tronco da árvore.
Vencendo o susto, Rosa achou forças para perguntar: - Quem é Vossemecê?
A resposta veio tão pronta como estranha:
- Sou a filha do que era senhor de todas estas terras e alcaide do velho castelo de Messejana. Estamos ambos encantados. Terrivelmente encantados. Por isso te apareço assim. Meu pai está encantado num touro. Sou uma moura encantada e só uma vez por ano volto à forma humana e apenas da cintura para cima.
- Mas isso é terrível. - Disse Rosa, abrindo os olhos de espanto.
- Sim, é. Mas se tu quiseres, Rosa, podes ajudar-nos a sair do nosso encantamento. No fim deste dia, ao ouvires dar a meia-noite, estarás na porta principal do convento, levando nas mãos um lenço branco, dobrado em bico. Quando soar a última badalada, o meu pai, transformado em touro, correrá em direcção a ti, mugindo terrivelmente e deitando baba. Não te deves assustar, pois nenhum mal te acontecerá. Mas tens de mostrar muita coragem. Quando o meu pai chegar junto de ti, limpa-lhe a baba com o lenço branco. Se fizeres tudo isso, tal como estou a ensinar-te, tudo se transformará! O meu pai voltará a ser homem e eu voltarei por completo, à forma humana. E tu serás muito feliz e rica. Compreendeste, Rosa?
Rosa estava perplexa e não respondeu logo. A moura tornou:
- Vê lá, pensa bem! Se falhares por medo, eu e o meu pai nunca mais perderemos o nosso encanto. Quanto a ti, serás uma desgraçada, daí em diante. Por isso, pensa bem antes de responder!
Rosa suspirou fundo e aceitou. Prometeu que não teria medo e ajudaria os mouros encantados. À noite quando já davam as ave-marias na capelinha, António caminhava pelo monte em direcção a casa. À sua chegada, Rosa contou tudo ao marido. Ele quis ir com ela. Protegê-la. Rosa não deixou. Ele acompanhá-la-ia apenas até ao portão do convento. Nessa noite não houve ceia. Estavam demasiado preocupados para pensar em comida. Finalmente a hora chegou. Rosa pôs um xaile pelos ombros, foi buscar o lenço branco, dobrou-o em triângulo, e juntou-se ao marido, que acendera uma lanterna. Caminharam juntos até ao convento. António ficou junto ao portão e Rosa meteu-se ao caminho até ao local indicado. E logo que a última badalada da meia-noite se extinguiu, surgiu um touro negro, numa corrida brutal, parecendo deitar chispas de fogo pelos olhos. Vendo-o assim, possante, enraivecido, numa correria louca direito a ela, Rosa perdeu toda a calma e gritou , alucinada:
- António! António! Ele vai matar-me!
Depois caíu no chão, desmaiada. Então ouviu-se um urro tremendo, e o touro desapareceu.
No ar pairava um lamento. Apenas um lamento. Um lamento numa voz de mulher:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
António correu em socorro da mulher. Levantou-a nos seus braços fortes e correu até casa.
Deitou-a sobre a cama e humedeceu-lhe as fontes enquanto chamava por ela. Rosa abriu os olhos mas o seu olhar foi de alucinação, os seus gestos de pavor intenso. E gritou:
- Tenho medo! Tirem-me o touro daqui! Tenho medo... Ele vai matar-me! António, António!!!
António a custo susteve a mulher, que se debatia nos seus braços.
- Acalma-te, Rosa! Que tens? Ele partiu. Tu estás comigo! Foi uma loucura, mas tudo passou!
Da noite surgiu de novo o lamento:
- Desgraçaste-te e desgraçaste-nos! Não mais se quebrará o encanto!
Rosa pareceu, subitamente, acalmar-se. Olhou o marido e não o reconheceu. Ele quase chorava. Rosa tinha enlouquecido! A maldita profecia cumpria-se: Rosa desgraçara os mouros e desgraçara-se! O medo quebrara a sua promessa!
Não mais teve um minuto de sossego a jovem alentejana. Não mais foi feliz o jovem António. E segundo conta ainda o povo, em certa noite de cada ano, quando soam as doze badaladas da meia-noite, ouvem-se urros de um touro e uma voz de mulher que chora angustiada, gritando:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
E o vento, fraco ou forte, leva nas suas asas esse grito de angústia pelos campos de Messejana.
Lendas de Portugal

sábado, 11 de Abril de 2009

A Ratita

Era uam vez um casal já idoso que nunca tinha tido filhos e desejava muito ter um. Um dia encontraram um ratinho e a mulher disse assim:
- Se fosse uma menina, haveríamos de vesti-la como uma princesa e chamar-lhe-íamos Ratita.
E zás! Logo o ratinho se transformou numa linda rapariga, bonita como o Sol. O casal ficou louco de alegria. Um belo dia, o velho, olhando-a admirado, pensou que tinha de lhe encontrar um marido. No entanto, por mais que pensasse e repensasse, não encontrou ninguém que lhe parecesse digno dela: em todos os pretendentes encontrava algum defeito. Até que, depois de muito reflectir, decidiu que o único partido possível era o Sol, que dominava o mundo inteiro, que todos respeitavam e de quem todos gostavam. Assim sendo, disse-lhe então:
- Escuta, Sol, queres casar com a Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E o Sol e a Ratita começaram o namoro, até que ao fim de três dias o Sol não apareceu. No dia seguinte apareceu de novo e disse à Ratita:
- Ontem não vim como de costume, pois a Nuvem maldita tapou-me e não nos pudemos ver.
Quando o velho ouviu isto, disse logo:
- Então uma simples Nuvem é mais poderosa que tu? Pareces-me pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho foi encontrar-se com a Nuvem e disse-lhe: - Escuta-me Nuvem, não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E a Nuvem apareceu durante três dias para ver Ratita mas no quarto dia não compareceu. No dia seguinte disse então à Ratita:
- Não penses que ontem não vim, como o tenho feito todas as tardes, mas o Vento maldito soprava tanto e com tanta força que não consegui parar e não nos pudemos ver.
Quando o velho ouviu tal coisa, logo disse:
- Então o Vento é mais poderoso que tu? Pareces-e pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho foi a correr encontrar-se com o Vento. - Escuta, Vento, não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E o Vento apareceu durante três dias para sair com a Ratita, mas ao chegar o quarto dia não se apresentou. No dia seguinte disse então à Ratita:
- Não penses que ontem não quis vir, mas é que a maldita Montanha não me deixou passar.
Ao ouvir isto, logo disse o velho:
- Então a Montanha é mais poderosa que tu? Pareces-me pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho partiu rapidamente em busca da Montanha, tendo-lhe então dito assim: - Por acaso não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Creio que sim, que gostaria!
- Pois podes namorá-la.
E aconteceu que nos primeiros três dias a Ratita e a Montanha se encontravam, mas ao chegar o quarto dia a Montanha estava inquieta e não parava de mexer-se e contorcer-se, não prestando qualquer atenção à rapariga. Foi então que a Ratita lhe perguntou:
- Que se passa? Porque estás tão inquieta?
- É um rato maldito que não pára de me morder e esgaravatar e não me deixa estar sossegada.
Quando o velho acabou de ouvir esta conversa, logo exclamou:
- Um rato? Um rato é mais poderoso que uma Montanha? Para acabar por se casar com um rato não valia a pena ter-se transformado em donzela e deixar de ser uma ratita.
Mal acabou de dizer estas palavras, a Ratita transformou-se num pequeno ratinho. Os bonitos vestidos de princesa ficaram pelo chão, feitos num farrapo, ela meteu-se pelo buraco da parede, de onde tinha saído quando a encontraram, e nunca mais souberam dela.

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

A criação do violino

Era uma vez um pobre homem e uma pobre mulher casados havia muito tempo e que não tinham filhos. Aconteceu então, uma ocasião, que ela foi ao bosque e encontrou uma anciã, que lhe disse:
- Vai para casa, parte uma abóbora, deita leite dentro e depois bebe-o. Darás à luz um filho que será rico e feliz.
Ditas estas palavras, desapareceu e a mulher voltou para casa e fez o que lhe tinha sido indicado. Nove meses mais tarde, deu à luz um belo rapaz. No entanto, ela não seria feliz por muito tempo, pois não tardou a adoecer e morreu. O marido expirou por sua vez, quando o jovem completou vinte anos. Este último disse então:
- Que farei aqui? Vou correr mundo em busca de fortuna!
Passou, pois, a ir de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, mas não fez fortuna em parte alguma. Até que, certo dia, chegou a uma cidade onde vivia um rei abastado que tinha uma filha muito linda. No entanto, só tencionava concedê-la como esposa ao homem que pudesse fazer coisa no mundo nunca vista. Muitos haviam tentado a sorte, porém o monarca mandara enforcar todos, porque não tinham conseguido nada de novo. Quando se inteirou, o jovem procurou-o e declarou:
- Quero a tua filha para esposa. Que tenho de fazer?
O rei encolerizou-se e replicou:
- Perguntas o que tens de fazer? Sabes perfeitamente que só a levará consigo quem conseguir algo jamais visto no mundo! E por me fazeres uma pergunta tão tola, morrerás num calabouço!
E mandou os lacaios encerrá-lo numa cela escura. Mal acabavam de fechar a porta à chave, surgiu um clarão que precedeu a rainha das fadas, a qual falou assim:
- Não estejas triste, pois obterás a princesa. Aqui tens uma caixa e uma varinha. Arranca-me alguns cabelos e estica-os em cima da caixa.
O jovem assim fez e, quando terminou, ela prosseguiu:
- Esta caixa será um violino e porás as pessoas alegres ou tristes, conforme desejares.
A seguir, pegou na caixa, riu-se para dentro dela, para depois começar a chorar e a derramar lágrimas para o mesmo lugar. Por fim, ordenou:
- Agora, tange os cabelos da caixa!
O jovem comprazeu-a e brotaram da caixa melodias que umas vezes entristeciam o coração e outras o alegravam.Quando a rainha das fadas desapareceu, ele chamou os lacaios e pediu que o conduzissem à presença do rei, ao qual disse:
- Escuta e observa o que fiz.
Começou então a tocar, e o monarca não cabia em si de prazer. Concedeu ao jovem a filha para esposa e viveram todos em paz e felicidade.
Assim veio o violino ao mundo.

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

A constelação das Plêiades

Era uma vez um homem que tinha seis filhos aos quais não dera nomes, limitando-se a chamar-lhes, de acordo com a idade, Primeiro, Segundo, Terceiro, Antepenúltimo, Penúltimo e Último.
Quando Primeiro completou dezoito anos e Último doze, o pai mandou todos percorrer mundo, para que aprendessem um ofício. Eles puseram-se a caminho e, durante algum tempo, seguiram juntos, mas ao chegar a uma dupla encruzilhada, da qual partiam seis caminhos diferentes, decidiram separar-se e cada um optar pelo seu próprio percurso. Prometeram encontrar-se naquele local dois anos exactos mais tarde, de onde regressariam à casa paterna.
Dois anos mais tarde encontraram-se de novo aí e regressaram juntos a casa do pai. Primeiro tornara-se mestre de construção naval e era capaz de construir barcos que se deslocavam sozinhos. Segundo embarcara, ascendera a piloto e sabia comandar qualquer tipo de barco. Terceiro aprendera a escutar e conseguia, num reino, ouvir o que se passava noutro. Antepenúltimo tornara-se atirador e cada um dos seus disparos atingia o alvo com precisão. Penúltimo aprendera a trepar, pelo que podia escalar uma parede como se fosse uma mosca. Último anunciou, muito satisfeito, que se convertera em mestre do roubo. O pai ficou tão furioso, que o agarrou pelas orelhas e bradou:
- Que vergonha! Atraíste a vergonha sobre mim e toda a família!
Aconteceu então que um feiticeiro mau roubou ao rei do seu país a jovem filha. O monarca prometeu-a como esposa - além de metade do reino como dote - a quem a descobrisse e arrebatasse ao raptor. Ao tomarem conhecimento, os seis irmãos decidiram tentar a sua sorte. O mestre de construção naval construiu um navio. O piloto pilotou-o por terra e por mar. O de ouvidos apurados escutou em todas as direcções e detectou a princesa no interior de uma montanha de cristal. O trepador trepou a toda a velocidade e uma vez no topo, avistou o feiticeiro, que dormia com a horrível cabeça pousada no regaço da princesa. Desceu e chamou o mestre do roubo, fê-lo subir para as suas costas e conduziu-o ao topo. O ladrão tirou a princesa de baixo da cabeça do feiticeiro sem que este se apercebesse , após o que o trepador transportou os dois até ao navio.
Com todos os irmãos a bordo, zarparam. O irmão de ouvidos apurados prestava atenção aos movimentos do feiticeiro.
- Acaba de acordar... Espreguiça-se... Dá pela ausência da princesa... Começa a dirigir-se para aqui!
O feiticeiro surgiu a sobrevoar o navio. O atirador visou-o com a sua arma, disparou e atingiu-o num sinal preto que este possuía no meio do peito. O feiticeiro explodiu em milhares de pedaços incandescentes, que dispersaram fumegantes, em todas as direcções, razão porque se encontram tão grandes quantidades de pederneira em todas as partes do mundo.
Os seis irmãos conduziram a princesa à corte. Todos se tinham apaixonado por ela e cada um podia afirmar que, sem a sua intervenção, nunca se salvaria. O rei viu-se perante um grande dilema, por não saber a qual entregar a sua filha. E ela achava-se em idênticos apuros, já que não conseguia determinar qual amava mais.
Deus, contudo, não quis que houvesse divergências contundentes entre eles, pelo que fez com que os seis irmãos e a princesa morressem na mesma noite. Depois, distribuiu os sete pelos céus, convertidos em estrelas, que são as que agora conhecemos por Plêiades.
A mais brilhante é a princesa e a menos visível o pequeno ladrão.

domingo, 16 de Novembro de 2008

Lenda de Alcoa e Baça

Alcoa acabara de amanhar a pequena parcela de terra, que lhe coubera em herança. O Sol, numa fraqueza de agonia, desaparecia na linha do horizonte. E o rapaz, braços fortes de quem trabalha, rosto sadio, foi com a pressa de um apaixonado até à pequena barraca onde vivia a jovem dos seus cuidados. Ao vê-la, o seu rosto iluminou-se, como se aquele sombrio ocaso fosse a mais linda manhã de Maio. Ela correu para ele. O rapaz acariciou-lhe os cabelos.
- Meu amor! Se este ano tiver sorte, em breve estaremos casados.
A rapariga encostou a cabeça no peito do noivo, murmurando enleada:
- Quem me dera, meu querido, quem me dera! Tenho tanto medo do futuro.
Surpreendido, Alcoa obrigou-a a olhá-lo, levantando com uma das mãos o queixo bem recortado da sua linda noiva.
- Tens medo de quê? Não contas com os meus braços fortes, com o meu espírito de lutador? Estou habituado a amanhar a terra. Conheço todos os segredos da Natureza.
Ela sorriu-lhe.
- Eu sei, mas enquanto não me vir junto de ti , dentro da nossa casa... compreendes... vivo cheia de temor pelo que nos possa acontecer.
- Que hei-de dizer-te, Baça? Afasta esses pressentimentos! Ajude-me o tempo nas colheitas que estão para vir, e tu verás!
Deram as mãos com calor. Juras eternas voltaram a repetir-se. E o sol morria aos poucos, lá ao longe, enquanto os jovens trocavam um beijo de amor.
O tempo das colheitas estava próximo. Havia, porém, muita ansiedade no coração de todos os lavradores daquelas terras, para os lados de Leiria. E numa noite em que a ventania zunia lá fora, alguém bateu fortemente á porta da cabana do jovem Alcoa.
Assim que abriu a porta, uma rajada de vento entrou, quase o derrubando. Num impulso de coragem, Alcoa fechou a porta. Então, dentro da casa, o vento girou num rodopio e, de súbito, transformou-se num figura estranha que sorria, fitando os olhos pasmados do jovem aldeão. Ouviu-se uma gargalhada e o desconhecido falou:
- Não te amedrontes, não venho fazer-te mal. Quero apenas propor-te um negócio. Se estiveres de acordo comigo, dar-te-ei a possibilidade de conseguires colheitas maravilhosas, e poderás casar ainda este ano, como é teu desejo.
Alcoa arregalou os olhos, num espanto sincero.
- Mas como sabe o senhor que eu estou para casar?
Outra risada, ainda mais insistente, deixou um frio na alma do jovem Alcoa. Mas já o visitante respondia:
- Eu sei tudo, meu rapaz... Eu sei tudo! E só pretendo uma troca, uma simples troca. Eu dou-te a garantia da melhor colheita de todos os tempos e tu assinas um documento no qual me concedes toda a tua terra. Estabeleces um pacto comigo, tu dás-me apenas a tua terra, que se tornará maior e melhor e eu dou-te a certeza de poderes casar e ser feliz. Com o rendimento da própria terra terás riqueza e poder. Serás mais forte que os ricos e mais temido que os poderosos.
Com a voz fremente de alegria, Alcoa concordou.
Soou então a maior gargalhada dessa noite. A figura estranah diluiu-se no recanto da cabana e o vento voltou a soprar lá fora, com redobrada fúria.
O rapaz guardou segredo de tão misteriosa visita. A ninguém contou o que lhe fora proposto. Baça notou que algo mudara, e interpelou-o:
- Alcoa, eu sei que as tuas colheitas têm decorrido maravilhosamente. Mas só as tuas, e isso eu não entendo. Todos se queixam, todos... Só tu tens tido sorte!
Ele riu um riso forte, que a impressionou. A rapariga estremeceu. Mas já ele lhe dizia adeus, afastando-se a passos largos.
As colheitas chegaram ao fim. Alcoa não cabia em si de contente, tinham excedido todas as suas expectativas. Estava rico! Riquíssimo! Foi então que a estranha e misteriosa figura visita de tempos atrás voltou a fazer a sua aparição.
- Cá estou eu como prometi, podes casar quando quiseres. Mas primeiro assina este documento conforme prometeste. E com sangue... Este documento só poderá ser assinado com sangue... O teu sangue!
Alcoa suspirou.
- É bem pouco o que me pede em troca de tanto que me dá. Aqui tem a minha assinatura.
A partir dessa noite, os negócios de Alcoa começaram a prosperar de um modo quase aflitivo de tão extraordinário que era. Os vizinhos começaram a olhar o rapz com desconfiança e ficou decidido que um dos mais velhos fosse falar com Alcoa.
- Olha, rapaz! Venho falar-te em nome dos homens desta terra. Tu és ainda muito novo e inexperiente na vida, já o mesmo não acontece connosco. Somos velhos e sabemos alguma coisa. Pensamos que tu tens um pacto com o Demónio. Só assim se explica que as tuas terras estejam cada vez melhores enquanto as nossas parecem cada vez mais ruins. Pois tem cuidado, Alcoa! Tem cuidado!
A fúria transtornou a expressão do jovem lavrador. Levantou o braço contra o velho, mas uma voz de mulher gritou o seu nome, suspendendo-lhe o gesto. Com voz tremente, Baça disse:
- Dizem que fizeste um pacto com o Demónio... E vendo-te como estás, desfigurado, acredito que é verdade. Tenho medo, Alcoa... tenho medo!
O jovem gritou colérico:
- Se acreditas... vai-te! Desaparece da minha vista!
Correndo como louca, a jovem Baça abandonou o noivo. Andou sem destino três dias e três noites. Chorando a sua desdita. A morte veio encontrá-la quando acabara de chorar a sua última lágrima. E conta a lenda que essas lágrimas reunidas se transformaram numa pequena ribeira, à qual foi dada o nome de Baça.
O jovem Alcoa caiu num desespero terrível quando soube da morte da sua amada. E diz-se que renegou por completo o pacto que fizera e jurou a Deus doar as suas terras a Santa Maria se conseguisse alcançar o perdão de Baça. Chorava Alcoa, sem cessar, a mágoa de ter sido ambicioso. Chorava de noite e dia. E tanto chorou que se transformou num rio: o rio Alcoa.
E nas noites luarentas, as águas do Alcoa murmuravam, quebrando o silêncio:
- Baça, meu amor. Perdoa-me! Peço-te por tudo que me perdoes! Baça, jurei dar as minhas terras a Santa Maria, se tu me perdoasses...
Pois numa dessas noites outra voz respondeu às lamentações e aos apelos do rio Alcoa.
- Sim... Já que tanto o desejas vou perdoar-te, para que estas terras sejam na verdade de Santa Maria, e tu possas remediar assim os teus erros passados. Vou juntar-me a ti, Alcoa!
E ali mesmo, a ribeira Baça se misturou com o rio Alcoa, desaguando no seu lado esquerdo, que é o lado do coração...
Desde esse instante, o rio Alcoa passou a denominar-se Alcobaça e todas essas terras ficaram devotadas a Santa Maria, cumprindo assim a jura feita.
E diz-se que em certas noites se continuam a escutar murmúrios de vozes humanas, no meio das águas do rio.
Murmúrios apaixonados.
Murmúrios de amor.
Lendas de Portugal

sábado, 8 de Novembro de 2008

Lenda da Ribeira da Sertã

Há muitos anos, viviam numa casita pobre do lugar um rapaz bastante novo e a mãe viúva. O rapaz chamava-se José, e era o único amparo da mãe desde que o pai morrera. Trabalhava todo o dia, enquanto a luz do Sol lhe permitia ver. À noite, voltava para junto da mãe, e ali ficava até novo dia despontar.
Certa vez, porém o calor apertou e o rapaz, já cansado, deitou-se no chão, entre uma gruta e a Ribeira, ao abrigo de uma sombra. Sem dar por isso, adormeceu. E quando a noite veio ele continuava a dormir...
Despertaram-no vozes femininas falando umas com as outras, quase ao mesmo tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. Era noite cerrada. No entanto, do lado da gruta vinha uma luz muito branca, como se a própria Lua lá estivesse escondida. José ergueu-se de um pulo. Embora não fosse medroso, o coração bateu-lhe com mais força. Seriam as mouras da Ribeira da Sertã? Seriam elas?...
As vozes soaram mesmo junto dele. Olhou e viu as mouras. Eram lindas! Principalmente uma delas que se aproximou dele. José perguntou:
- Que me queres?
Mas já uma outra moura surgia da gruta, afastando a que ele havia distinguido.
- José! Tu és um bom rapaz, forte, sério, trabalhador. Podes, se quiseres, salvar uma de nós. Somos as mouras encantadas da Ribeira da Sertã. Escolhe a que desejas, porque a que salvares será para ti, assim como todo o ouro que lhe pertence!
José abria os olhos num espanto. A moura insistiu:
- Responde, José: qual de nós tu preferes?
José olhou em volta, procurando aquela que primeiro lhe sorrira. A chefe das mouras ordenou então:
- Almina! Podes aproximar-te. Ele escolheu-te. Mas espero que não o tenhas enfeitiçado com o teu olhar! Bem sabes o que isso poderia representar para ti... e para ele.
A moura tirou de sob o manto um lenço branco atado nas quatro pontas, contendo algo que não se via mas que aparentava ser pesado, e entregou-o ao rapaz, dizendo:
- Toma e guarda-o bem! Nesse lenço vai a tua felicidade. Tem cuidado, não o abras! Deixa-o ficar assim até que voltemos a aparecer-te.
José acenou com a cabeça. As mouras desapareceram. A luz prateada extinguia-se junto à gruta. A escuridão voltava a envolvê-lo.
Passaram dias, semanas, meses. José pensava desesperadamente nas mouras da Ribeira da Sertã. Passou o Verão. Passou o Outono. O Inverno alagou os campos. A Lua ficou escondida por detrás de densas nuvens. Nem mouras nem luar. José não dormia. Não comia capazmente. Já não era o mesmo homem de trabalho. O seu segredo sufocava-o. E um dia, não podendo conter-se mais, desabafou com a sua mãe. Esta ao ver o lenço atado pelas quatro pontas, não resistiu e num ápice o lenço foi desatado. Um pedaço de carvão caiu no solo. Carvão das brasas dos madeiros. A mãe setenciou:
- Brincaram contigo. Ainda bem que fomos mais espertos que elas.
José apanhou o carvão. Colocou-o de novo no lenço, atou-o e guardou-o no bolso. Nessa noite, porém, não conseguiu dormir.
A Primavera chegou e, um dia, José viu-se de súbito na Ribeira da Sertã, do lado das escarpas. Na sua frente, as mouras, pálidas e tristes. Não cantavam nem riam. A chefe do grupo dirigiu-se ao jovem aldeão:
- José! Devolve-nos o lenço que te demos.
Ele tirou o lenço do bolso e entregou-lho. Ela desatou-o. E do lenço caíram moedas de ouro. O rapaz abriu os olhos num espanto. A moura disse:
- Tu viste carvão, não é assim? Tu e a tua mãe! Faltaste à tua promessa. Perdeste a tua felicidade e a de Almina. Ela está no fundo da gruta de onde não mais poderá sair. Quanto a ti, trabalharás de sol a sol sem nunca amealhares uma só moeda. A curiosidade perdeu-te.
As mouras desapareceram numa espécie de neblina que envolveu o próprio José. Desesperado, sentou-se numa saliência rochosa e chorou amargamente. Mas as mouras da Ribeira da Sertã não voltaram para o consolar. José não foi mais o mesmo rapaz alegre e trabalhador. Todos os seus momentos vagos eram para a Ribeira da Sertã. Punha-se diante da gruta, a chorar e a suplicar às mouras que o perdoassem. Mas a gruta conservava-se muda. E os aldeões, vendo-o e ouvindo-o naquela aflição, tremiam de pavor e afastavam-se do local fatídico, não fosse surgir-lhes pela frente as mouras da Ribeira da Sertã...

Lendas de Portugal

Helena

Desde que há registo que os homens acreditam em Helena.
Acreditam nela tanto como personagem histórica real, como na sua qualidade de arquétipo de beleza, de feminilidade, de sexo, de perigo.
Os admiradores de Helena e os seus detractores têm sido muitos e variados. Freiras medievais enfatizaram os seus amores, no Renascimento os "rebeldes" davam às filhas o nome de Helena, apesar de a categorizarem como um nome que traria desgraça. No século XVII, os artistas recebiam encomendas para decorarem edíficios com cenas gigantes sobre o rapto de Helena. No final do século XVIII e início do século XIX o nome Helena foi usado como termo ofensivo, para significar uma coquete, uma prostituta, uma mulher imoral. Hoje é invocada como uma poderosa bruxa de magia branca, outros a aclamam como o primeiro modelo exemplar feminino de que há registo.
Helena encoraja a especulação no seu sentido mais verdadeiro - segurando um espelho, frente ao rosto sempre em mutação, para ver que mundos podem ser vislumbrados no reflexo.

"Não há arte em transformar uma deusa em bruxa, uma virgem em prostituta, mas a operação inversa, dar dignidade àquilo que foi desdenhado, tornar o desprezado desejado, tal exige ou arte ou carácter." (J.W. Goöethe).

A História está ao mesmo tempo perplexa e encantada com Helena; podemos encontrar quase três milénios de atitudes ambíguas para com ela. Helena é díficil de categorizar por boas razões; seguir Helena através dos tempos traz à superfície três formas suas distintas, ainda que interligadas. Quando se fala de Helena, descreve-se uma trindade, princesa, deusa e prostituta.
A Helena mais familiar é a brilhante beldade real das epopeias, a Helena de Homero, a princesa espartana com paternidade divina disputada pelos heróis na Grécia e depois conquistada pela riqueza de Menelau. A teimosa e caprichosa aristocrata que abandonou os gregos, atravessou o Egeu e que depois definhou em Tróia, odiada por todos os que a rodeavam. A figura enigmática que navegou de volta a Esparta, de volta para uma cama que deixara fria. A criatura- maculada e, no entanto, estranhamente dignificada - que demonstrou que a beleza feminina era algo tanto a recear como a desejar.
Foi um ídolo da beleza e da sexualidade femininas tanto adorado como desprezado...

"O meu nome pode estar em muitos sítios: a minha pessoa só pode estar num." (Eurípides, Helena).

quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Lenda dos Sete Ais


Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros em 25 de Outubro de 1147, o castelo de Sintra rendeu-se sem resistência, apenas sob a condição dos mouros seus moradores se poderem estabelecer em terras vizinhas, o que lhes foi outorgado.
Entre os cavaleiros mais chegados ao rei, estava o jovem D. Mendo de Paiva, um dos designados pelo monarca para ocupar o castelo. D. Mendo foi o primeiro a subir a serra de Xentra, (o nome de Sintra vem de Xentra, como lhe chamava o geógrafo árabe Edrisi, que viveu no século XII). Chegado ao alto parou un instante. Fazia-se a retirada. Os mouros mais destacados utilizavam uma saída secreta, que D. Mendo não tardou a descobrir - no preciso momento em que uma jovem moura ia a sair por ela, acompanhada da sua velha aia. Ao vê-lo, a fugitiva afligiu-se, pois esperava poder escapar ao olhar dos vencedores. Com o nervosismo da surpresa, gritou. Zuleima, a sua velha aia, ficou ainda mais aflita. E indagou, com o medo estampado no rosto:
- Anasir, por que gritaste?
Ela respondeu, mal refeita ainda do susto:
- Não pude conter este meu ai.
D. Mendo sorriu. A velha aia perguntou:
- Não ides permitir que partamos? Temos licença de sair em liberdade. O que pretendeis são os nossos bens e as nossas terras, não é assim? Pois aí fica tudo! Podemos partir?
D. Mendo respirou fundo, e quase maliciosamente retorquiu:
- Sim, podes partir. Deixa-me tudo... sem esquecer a tua querida ama!
Aflita, Anasir, soltou novo grito de susto. Logo, Zuleima lhe pegou nas mãos, presa de novo pavor.
- Anasir, minha querida ama! Já é o segundo ai num tão curto espaço de tempo! Evitai essa exclamação, peço-vos!
Passos apressados soaram perto. Anasir assustou-se e gritou. Mas já D. Mendo lhe tapava a boca com a mão:
- Senhora! É preciso que vos leve daqui sem que vos vejam!
Porém, mais pálida ainda, Zuleima apontava a sua jovem ama quase sem poder falar. Anasir indagou o que se passava, ao que Zuleima respondeu:
- Ouvi! Ouvi o vosso terceiro ai num espaço de tempo tão curto! Prometei-me! Prometei-me, Anasir, que não soltareis mais nenhum ai! Fazei essa graça à vossa humilde serva!
A princesa acalmou-a e prometeu que faria os possíveis para não pronunciar mais nenhum ai.
Entretanto, os cristãos chegavam junto ao corredor que dava para a parte sul da serra. Anasir assustou-se e soltou o quarto ai. Zuleima agarrou-lhe os vestidos. Nasceram lágrimas nos seus olhos.
- Senhora, senhora! Haveís prometido! E afinal...
Anasir parecia confusa. Não compreendia...
As vozes dos cristãos estavam mais perto. D. Mendo levou ambas para a casinha do terreiro onde instalou a velha ama e a princesa moura.
- D. Mendo, - disse Anasir -, gosto desta casinha. Creio que ficarei aqui até o desejardes.
Ele apertou entre as suas mãos, as mãos delicadas da jovem moura e afirmou:
- Querida Anasir! Prometo que sereis feliz!
Anasir e Zuleima viviam semicativas na casinha do terreiro, onde D. Mendo as escondera de mouros e cristãos. Amava Anasir e não queria perdê-la. Desejava a sua permanente companhia.
Uma tarde descobriu que mouros inimigos rondavam aqueles sítios e entre eles encontrava-se Aben-Abed, que tinha abandonado Anasir ao ver-se cercado pelos cristãos. Ao fugir, tinha perdido o direito ao amor de Anasir. D. Mendo avisou Zuleima para que não saíssem de casa.
Questionou Zuleima sobre a sua preocupação quando Anasir pronunciava um ai, ao que a ama lhe confidenciou:
- Quando a minha ama nasceu, uma feiticeira disse que Anasir morreria ao pronunciar o sétimo ai.
- Não acredito em profecias de feiticeiras - respondeu D. Mendo - mas, de qualquer modo, tentaremos evitar que Anasir volte a proferir tal exclamação.
Anasir surgiu, sorrindo.
- Que surpresa agradável, meu senhor! Zuleima, porque não me chamaste?
- D. Mendo assim o determinou.
Ela tentou ralhar-lhe:
- Ai, meu senhor, por que fizeste isso?
Zuleima empalideceu. Anasir deixou de sorrir. Voltou-se para o cavaleiro:
- D. Mendo! Achais que Zuleima se assusta com razão quando eu grito: Ai?...
Zuleima chorava em silêncio.
- Senhora, soltaste mais dois ais. São já seis, senhora. Seis!
Anasir olhou perplexa para Zuleima.
- E isso que tem? Desde que os pronuncio é que conheço a felicidade! E a vós a devo, D. Mendo!
D. Mendo, apertou nos braços a jovem moura, e disse-lhe que se iria ausentar por uns tempos. D. Afonso Henriques tinha solicitado os seus serviços.
Sete dias se passaram. E, de súbito, a algazarra de um grupo de mouros que haviam entrado no terreiro pôs Anasir e Zuleima em sobressalto. Entre os mouros um se destacou. Era Aben-Abed que vinha reclamar Anasir. Zuleima protegeu a sua ama com o corpo. Aben-Abed levantou o alfange e sem mais palavras cortou de um só golpe a cabeça da velha e dedicada aia. Louca de aflição, Anasir soltou o sétimo ai, que ficou repercutindo no espaço.
- Maldito sejas, Aben-Abed!
A voz, porém, extinguiu-se-lhe na garganta. O mouro ferira-a no peito, e era mortal, a ferida. No horizonte surgiu uma chama de fogo. Aben-Abed fugia pela segunda vez, abandonando as suas vítimas. O silêncio voltou a reinar na casinha do terreiro. Um silêncio profundo. Um silêncio de morte.
Quando D. Mendo regressou, ficou louco de dor. Deu ao terreiro o nome de Seteais em memória da jovem moura que ele tanto amava. Ao sair dali, jurou vingança. E nunca D. Afonso Henriques chegou a compreender a razão porque o seu súbdito D. Mendo de Paiva se tornara, desde a tomada do castelo de Sintra, um dos mais ferozes caçadores de mouros...
Lendas de Portugal


terça-feira, 15 de Julho de 2008

Jasão

Jasão era filho de de Eson, rei de Ialcos, tendo sido criado pelo Centauro Quiron. A lenda conta que Pélias, irmão de Eson, usurpara o trono da Tessália, que competia ao último. Jasão, como filho herdeiro de Eson, viria a ser futuramente um obstáculo à continuação do reinado de Pélias, pelo que resolveu eliminá-lo. Eson, ao aperceber-se do intuito do irmão, cobriu-se de luto, simulou a morte do filho e confiou-o aos cuidados de Quiron. Pélias tranquilizou-se perante o desaparecimento do sobrinho, mas, um oráculo avisou-o de que um homem, com sandálias apenas em um dos pés, poria em risco o seu reinado.
Tempos depois, já Jasão era homem, veio a conhecer Pélias, o qual ignorando tratar-se do seu sobrinho, convidou-o para uma festa. Jasão aceitou o convite, e, tendo perdido, no caminho, uma das sandálias, apresentou-se apenas com um dos pés calçado. Pélias, lembrando-se então do oráculo, perguntou-lhe:
- Que farias, meu amigo, se fosses rei, e um oráculo predissesse que um teu visitante viria a destronar-te?
- Mandá-lo-ia buscar o Velo de Ouro. - Respondeu Jasão.
- Pois bem, és tu, precisamente, o indicado pelo oráculo; vai, portanto, buscar o precioso talismã; se me o apresentares, eu te restituirei o trono. - assim disse Pélias.
Jasão obedeceu e auxiliado por Minerva, construiu a nau Argos, cujo significado é A Veloz, e nela embarcou com mais 52 tripulantes rumando à Cólchida, região da Ásia banhada pelo Fonde. Na presença do rei Eétes, intimou-o a entregar o Velo que se encontrava em seu poder.
O rei, certo de mandá-lo à morte, impôs-lhes 4 condições:
- Pôr a canga em dois touros de pés e cornos de bronze, que deitavam fogo pelas narinas, e atrelá-los a uma charrua de diamante;
- Lavrar, com eles, uma vasta área, e nela semear os dentes do dragão Cadmo;
- Vencer os gigantes armados que viessem a nascer dessas sementes;
- Enfrentar e matar o dragão que guardava o Velo.
Jasão, tendo conquistado o amor de Medéa, filha do rei e hábil feiticeira, dela obteve, sob promessa de casamento, todos os elementos necessários à completa vitória. Recebeu um bálsamo maravilhoso para ser untado no seu corpo e nas suas armas, tornando-os invulneráveis ao fogo, e foi-lhe recomendado que, quando nascessem os gigantes, atirasse uma pedra no meio deles, o que os faria lutar uns contra os outros, até se exterminarem.
Essas recomendações, seguidas a risco, deram o resultado desejado. Restava apenas vencer o dragão. Para isso, Medéa, com uma bebida mágica, fê-lo adormecer, e Jasão, encontrando-o inerte, em profundo sono, atravessou-o com sua afiada lança, tombando-o por terra. Em seguida, apossou-se do Velo de Ouro e fugiu com Medéa.
Chegando a Tessália, entregou-o a Pélias e reclamou o prometido. O soberano recusou-se. Medéa arquitectou uma terrível vingança. Falou com as filhas do usurpador e devido à adiantada idade do pai, disse-lhes que elas poderiam facilmente rejuvenescê-lo: deviam fazê-lo em pedaços, e deitá-lo a ferver num caldeirão, com determinadas ervas. As filhas de Pélias não vacilaram em matar o velho pai, reduzi-lo a pedaços, esperando em vão, vê-lo ressurgir jovem e formoso. Eliminado, assim, Pélias, Jasão reinvindicou o trono.
Apesar dos inolvidáveis serviços que Medéa lhe prestou, Jasão, ingratamente, abandonou-a para se ligar a Creusa, filha de Príamo e de Hécuba, e primeira esposa de Enéas.
Medéa vingou-se de forma terrível. Matou o filho do casal e enviou a Creusa, como presente de núpcias, uma túnica envenenada que a devorou em chamas, fugindo, em seguida, para Atenas. Desesperado por tão grande infortúnio, Jasão suicidou-se.