sábado, 18 de abril de 2009

Lenda da Moura e do Touro

Na antiga vila de Messejana, conquistada aos Mouros por D. Sancho II, perdurava ainda o perfume do mistério das mouras que por lá tinham passado. Quando os rapazes passeavam na estrada, cantando à luz prateada do luar, as suas canções dolentes assemelhavam-se às toadas mouriscas de distantes amores perdidos.
Rosa era a rapariga mais bonita e travessa do lugar. Todos a requestavam. Todos a queriam. Mas ela preferira o seu António. E como acontece em muitas das histórias populares, Rosa e António casaram e foram muito felizes. Viviam na Horta do Cabo. António trabalhava no campo. Rosa lavava a roupa das pessoas mais abastadas. E à noite, quando o tempo permitia, cantavam canções dolentes de amores distantes, perdidos...
Certa manhã, quando Rosa estava a lavar a roupa num tanque da quinta, ouviu uma voz estranha que a sobressaltou. Chamava pelo seu nome. Era uma voz de mulher, fina, cariciosa. Assustou-se e perguntou: - Quem me chama?
Voltou a voz, serena: - Sou eu, Rosa... Estou aqui, no castanheiro...
Rosa levantou o olhar e estremeceu. No castanheiro em frente, estava uma jovem de singular beleza. Os cabelos cobriam-lhe os ombros, e o corpo, da cintura para baixo, não tinha forma humana, mas o aspecto de uma grande serpente que se enrolava no tronco da árvore.
Vencendo o susto, Rosa achou forças para perguntar: - Quem é Vossemecê?
A resposta veio tão pronta como estranha:
- Sou a filha do que era senhor de todas estas terras e alcaide do velho castelo de Messejana. Estamos ambos encantados. Terrivelmente encantados. Por isso te apareço assim. Meu pai está encantado num touro. Sou uma moura encantada e só uma vez por ano volto à forma humana e apenas da cintura para cima.
- Mas isso é terrível. - Disse Rosa, abrindo os olhos de espanto.
- Sim, é. Mas se tu quiseres, Rosa, podes ajudar-nos a sair do nosso encantamento. No fim deste dia, ao ouvires dar a meia-noite, estarás na porta principal do convento, levando nas mãos um lenço branco, dobrado em bico. Quando soar a última badalada, o meu pai, transformado em touro, correrá em direcção a ti, mugindo terrivelmente e deitando baba. Não te deves assustar, pois nenhum mal te acontecerá. Mas tens de mostrar muita coragem. Quando o meu pai chegar junto de ti, limpa-lhe a baba com o lenço branco. Se fizeres tudo isso, tal como estou a ensinar-te, tudo se transformará! O meu pai voltará a ser homem e eu voltarei por completo, à forma humana. E tu serás muito feliz e rica. Compreendeste, Rosa?
Rosa estava perplexa e não respondeu logo. A moura tornou:
- Vê lá, pensa bem! Se falhares por medo, eu e o meu pai nunca mais perderemos o nosso encanto. Quanto a ti, serás uma desgraçada, daí em diante. Por isso, pensa bem antes de responder!
Rosa suspirou fundo e aceitou. Prometeu que não teria medo e ajudaria os mouros encantados. À noite quando já davam as ave-marias na capelinha, António caminhava pelo monte em direcção a casa. À sua chegada, Rosa contou tudo ao marido. Ele quis ir com ela. Protegê-la. Rosa não deixou. Ele acompanhá-la-ia apenas até ao portão do convento. Nessa noite não houve ceia. Estavam demasiado preocupados para pensar em comida. Finalmente a hora chegou. Rosa pôs um xaile pelos ombros, foi buscar o lenço branco, dobrou-o em triângulo, e juntou-se ao marido, que acendera uma lanterna. Caminharam juntos até ao convento. António ficou junto ao portão e Rosa meteu-se ao caminho até ao local indicado. E logo que a última badalada da meia-noite se extinguiu, surgiu um touro negro, numa corrida brutal, parecendo deitar chispas de fogo pelos olhos. Vendo-o assim, possante, enraivecido, numa correria louca direito a ela, Rosa perdeu toda a calma e gritou , alucinada:
- António! António! Ele vai matar-me!
Depois caíu no chão, desmaiada. Então ouviu-se um urro tremendo, e o touro desapareceu.
No ar pairava um lamento. Apenas um lamento. Um lamento numa voz de mulher:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
António correu em socorro da mulher. Levantou-a nos seus braços fortes e correu até casa.
Deitou-a sobre a cama e humedeceu-lhe as fontes enquanto chamava por ela. Rosa abriu os olhos mas o seu olhar foi de alucinação, os seus gestos de pavor intenso. E gritou:
- Tenho medo! Tirem-me o touro daqui! Tenho medo... Ele vai matar-me! António, António!!!
António a custo susteve a mulher, que se debatia nos seus braços.
- Acalma-te, Rosa! Que tens? Ele partiu. Tu estás comigo! Foi uma loucura, mas tudo passou!
Da noite surgiu de novo o lamento:
- Desgraçaste-te e desgraçaste-nos! Não mais se quebrará o encanto!
Rosa pareceu, subitamente, acalmar-se. Olhou o marido e não o reconheceu. Ele quase chorava. Rosa tinha enlouquecido! A maldita profecia cumpria-se: Rosa desgraçara os mouros e desgraçara-se! O medo quebrara a sua promessa!
Não mais teve um minuto de sossego a jovem alentejana. Não mais foi feliz o jovem António. E segundo conta ainda o povo, em certa noite de cada ano, quando soam as doze badaladas da meia-noite, ouvem-se urros de um touro e uma voz de mulher que chora angustiada, gritando:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
E o vento, fraco ou forte, leva nas suas asas esse grito de angústia pelos campos de Messejana.
Lendas de Portugal

sábado, 11 de abril de 2009

A Ratita

Era uam vez um casal já idoso que nunca tinha tido filhos e desejava muito ter um. Um dia encontraram um ratinho e a mulher disse assim:
- Se fosse uma menina, haveríamos de vesti-la como uma princesa e chamar-lhe-íamos Ratita.
E zás! Logo o ratinho se transformou numa linda rapariga, bonita como o Sol. O casal ficou louco de alegria. Um belo dia, o velho, olhando-a admirado, pensou que tinha de lhe encontrar um marido. No entanto, por mais que pensasse e repensasse, não encontrou ninguém que lhe parecesse digno dela: em todos os pretendentes encontrava algum defeito. Até que, depois de muito reflectir, decidiu que o único partido possível era o Sol, que dominava o mundo inteiro, que todos respeitavam e de quem todos gostavam. Assim sendo, disse-lhe então:
- Escuta, Sol, queres casar com a Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E o Sol e a Ratita começaram o namoro, até que ao fim de três dias o Sol não apareceu. No dia seguinte apareceu de novo e disse à Ratita:
- Ontem não vim como de costume, pois a Nuvem maldita tapou-me e não nos pudemos ver.
Quando o velho ouviu isto, disse logo:
- Então uma simples Nuvem é mais poderosa que tu? Pareces-me pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho foi encontrar-se com a Nuvem e disse-lhe: - Escuta-me Nuvem, não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E a Nuvem apareceu durante três dias para ver Ratita mas no quarto dia não compareceu. No dia seguinte disse então à Ratita:
- Não penses que ontem não vim, como o tenho feito todas as tardes, mas o Vento maldito soprava tanto e com tanta força que não consegui parar e não nos pudemos ver.
Quando o velho ouviu tal coisa, logo disse:
- Então o Vento é mais poderoso que tu? Pareces-e pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho foi a correr encontrar-se com o Vento. - Escuta, Vento, não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Sim, gostaria muito!
- Pois podes namorá-la.
E o Vento apareceu durante três dias para sair com a Ratita, mas ao chegar o quarto dia não se apresentou. No dia seguinte disse então à Ratita:
- Não penses que ontem não quis vir, mas é que a maldita Montanha não me deixou passar.
Ao ouvir isto, logo disse o velho:
- Então a Montanha é mais poderosa que tu? Pareces-me pouco digno de casar com a minha Ratita. - E o velho partiu rapidamente em busca da Montanha, tendo-lhe então dito assim: - Por acaso não gostarias de casar com a minha Ratita?
- Creio que sim, que gostaria!
- Pois podes namorá-la.
E aconteceu que nos primeiros três dias a Ratita e a Montanha se encontravam, mas ao chegar o quarto dia a Montanha estava inquieta e não parava de mexer-se e contorcer-se, não prestando qualquer atenção à rapariga. Foi então que a Ratita lhe perguntou:
- Que se passa? Porque estás tão inquieta?
- É um rato maldito que não pára de me morder e esgaravatar e não me deixa estar sossegada.
Quando o velho acabou de ouvir esta conversa, logo exclamou:
- Um rato? Um rato é mais poderoso que uma Montanha? Para acabar por se casar com um rato não valia a pena ter-se transformado em donzela e deixar de ser uma ratita.
Mal acabou de dizer estas palavras, a Ratita transformou-se num pequeno ratinho. Os bonitos vestidos de princesa ficaram pelo chão, feitos num farrapo, ela meteu-se pelo buraco da parede, de onde tinha saído quando a encontraram, e nunca mais souberam dela.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A criação do violino

Era uma vez um pobre homem e uma pobre mulher casados havia muito tempo e que não tinham filhos. Aconteceu então, uma ocasião, que ela foi ao bosque e encontrou uma anciã, que lhe disse:
- Vai para casa, parte uma abóbora, deita leite dentro e depois bebe-o. Darás à luz um filho que será rico e feliz.
Ditas estas palavras, desapareceu e a mulher voltou para casa e fez o que lhe tinha sido indicado. Nove meses mais tarde, deu à luz um belo rapaz. No entanto, ela não seria feliz por muito tempo, pois não tardou a adoecer e morreu. O marido expirou por sua vez, quando o jovem completou vinte anos. Este último disse então:
- Que farei aqui? Vou correr mundo em busca de fortuna!
Passou, pois, a ir de aldeia em aldeia e de cidade em cidade, mas não fez fortuna em parte alguma. Até que, certo dia, chegou a uma cidade onde vivia um rei abastado que tinha uma filha muito linda. No entanto, só tencionava concedê-la como esposa ao homem que pudesse fazer coisa no mundo nunca vista. Muitos haviam tentado a sorte, porém o monarca mandara enforcar todos, porque não tinham conseguido nada de novo. Quando se inteirou, o jovem procurou-o e declarou:
- Quero a tua filha para esposa. Que tenho de fazer?
O rei encolerizou-se e replicou:
- Perguntas o que tens de fazer? Sabes perfeitamente que só a levará consigo quem conseguir algo jamais visto no mundo! E por me fazeres uma pergunta tão tola, morrerás num calabouço!
E mandou os lacaios encerrá-lo numa cela escura. Mal acabavam de fechar a porta à chave, surgiu um clarão que precedeu a rainha das fadas, a qual falou assim:
- Não estejas triste, pois obterás a princesa. Aqui tens uma caixa e uma varinha. Arranca-me alguns cabelos e estica-os em cima da caixa.
O jovem assim fez e, quando terminou, ela prosseguiu:
- Esta caixa será um violino e porás as pessoas alegres ou tristes, conforme desejares.
A seguir, pegou na caixa, riu-se para dentro dela, para depois começar a chorar e a derramar lágrimas para o mesmo lugar. Por fim, ordenou:
- Agora, tange os cabelos da caixa!
O jovem comprazeu-a e brotaram da caixa melodias que umas vezes entristeciam o coração e outras o alegravam.Quando a rainha das fadas desapareceu, ele chamou os lacaios e pediu que o conduzissem à presença do rei, ao qual disse:
- Escuta e observa o que fiz.
Começou então a tocar, e o monarca não cabia em si de prazer. Concedeu ao jovem a filha para esposa e viveram todos em paz e felicidade.
Assim veio o violino ao mundo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A constelação das Plêiades

Era uma vez um homem que tinha seis filhos aos quais não dera nomes, limitando-se a chamar-lhes, de acordo com a idade, Primeiro, Segundo, Terceiro, Antepenúltimo, Penúltimo e Último.
Quando Primeiro completou dezoito anos e Último doze, o pai mandou todos percorrer mundo, para que aprendessem um ofício. Eles puseram-se a caminho e, durante algum tempo, seguiram juntos, mas ao chegar a uma dupla encruzilhada, da qual partiam seis caminhos diferentes, decidiram separar-se e cada um optar pelo seu próprio percurso. Prometeram encontrar-se naquele local dois anos exactos mais tarde, de onde regressariam à casa paterna.
Dois anos mais tarde encontraram-se de novo aí e regressaram juntos a casa do pai. Primeiro tornara-se mestre de construção naval e era capaz de construir barcos que se deslocavam sozinhos. Segundo embarcara, ascendera a piloto e sabia comandar qualquer tipo de barco. Terceiro aprendera a escutar e conseguia, num reino, ouvir o que se passava noutro. Antepenúltimo tornara-se atirador e cada um dos seus disparos atingia o alvo com precisão. Penúltimo aprendera a trepar, pelo que podia escalar uma parede como se fosse uma mosca. Último anunciou, muito satisfeito, que se convertera em mestre do roubo. O pai ficou tão furioso, que o agarrou pelas orelhas e bradou:
- Que vergonha! Atraíste a vergonha sobre mim e toda a família!
Aconteceu então que um feiticeiro mau roubou ao rei do seu país a jovem filha. O monarca prometeu-a como esposa - além de metade do reino como dote - a quem a descobrisse e arrebatasse ao raptor. Ao tomarem conhecimento, os seis irmãos decidiram tentar a sua sorte. O mestre de construção naval construiu um navio. O piloto pilotou-o por terra e por mar. O de ouvidos apurados escutou em todas as direcções e detectou a princesa no interior de uma montanha de cristal. O trepador trepou a toda a velocidade e uma vez no topo, avistou o feiticeiro, que dormia com a horrível cabeça pousada no regaço da princesa. Desceu e chamou o mestre do roubo, fê-lo subir para as suas costas e conduziu-o ao topo. O ladrão tirou a princesa de baixo da cabeça do feiticeiro sem que este se apercebesse , após o que o trepador transportou os dois até ao navio.
Com todos os irmãos a bordo, zarparam. O irmão de ouvidos apurados prestava atenção aos movimentos do feiticeiro.
- Acaba de acordar... Espreguiça-se... Dá pela ausência da princesa... Começa a dirigir-se para aqui!
O feiticeiro surgiu a sobrevoar o navio. O atirador visou-o com a sua arma, disparou e atingiu-o num sinal preto que este possuía no meio do peito. O feiticeiro explodiu em milhares de pedaços incandescentes, que dispersaram fumegantes, em todas as direcções, razão porque se encontram tão grandes quantidades de pederneira em todas as partes do mundo.
Os seis irmãos conduziram a princesa à corte. Todos se tinham apaixonado por ela e cada um podia afirmar que, sem a sua intervenção, nunca se salvaria. O rei viu-se perante um grande dilema, por não saber a qual entregar a sua filha. E ela achava-se em idênticos apuros, já que não conseguia determinar qual amava mais.
Deus, contudo, não quis que houvesse divergências contundentes entre eles, pelo que fez com que os seis irmãos e a princesa morressem na mesma noite. Depois, distribuiu os sete pelos céus, convertidos em estrelas, que são as que agora conhecemos por Plêiades.
A mais brilhante é a princesa e a menos visível o pequeno ladrão.