Rosa era a rapariga mais bonita e travessa do lugar. Todos a requestavam. Todos a queriam. Mas ela preferira o seu António. E como acontece em muitas das histórias populares, Rosa e António casaram e foram muito felizes. Viviam na Horta do Cabo. António trabalhava no campo. Rosa lavava a roupa das pessoas mais abastadas. E à noite, quando o tempo permitia, cantavam canções dolentes de amores distantes, perdidos...
Certa manhã, quando Rosa estava a lavar a roupa num tanque da quinta, ouviu uma voz estranha que a sobressaltou. Chamava pelo seu nome. Era uma voz de mulher, fina, cariciosa. Assustou-se e perguntou: - Quem me chama?
Voltou a voz, serena: - Sou eu, Rosa... Estou aqui, no castanheiro...
Rosa levantou o olhar e estremeceu. No castanheiro em frente, estava uma jovem de singular beleza. Os cabelos cobriam-lhe os ombros, e o corpo, da cintura para baixo, não tinha forma humana, mas o aspecto de uma grande serpente que se enrolava no tronco da árvore.
Vencendo o susto, Rosa achou forças para perguntar: - Quem é Vossemecê?
A resposta veio tão pronta como estranha:
- Sou a filha do que era senhor de todas estas terras e alcaide do velho castelo de Messejana. Estamos ambos encantados. Terrivelmente encantados. Por isso te apareço assim. Meu pai está encantado num touro. Sou uma moura encantada e só uma vez por ano volto à forma humana e apenas da cintura para cima.
- Mas isso é terrível. - Disse Rosa, abrindo os olhos de espanto.
- Sim, é. Mas se tu quiseres, Rosa, podes ajudar-nos a sair do nosso encantamento. No fim deste dia, ao ouvires dar a meia-noite, estarás na porta principal do convento, levando nas mãos um lenço branco, dobrado em bico. Quando soar a última badalada, o meu pai, transformado em touro, correrá em direcção a ti, mugindo terrivelmente e deitando baba. Não te deves assustar, pois nenhum mal te acontecerá. Mas tens de mostrar muita coragem. Quando o meu pai chegar junto de ti, limpa-lhe a baba com o lenço branco. Se fizeres tudo isso, tal como estou a ensinar-te, tudo se transformará! O meu pai voltará a ser homem e eu voltarei por completo, à forma humana. E tu serás muito feliz e rica. Compreendeste, Rosa?
Rosa estava perplexa e não respondeu logo. A moura tornou:
- Vê lá, pensa bem! Se falhares por medo, eu e o meu pai nunca mais perderemos o nosso encanto. Quanto a ti, serás uma desgraçada, daí em diante. Por isso, pensa bem antes de responder!
Rosa suspirou fundo e aceitou. Prometeu que não teria medo e ajudaria os mouros encantados. À noite quando já davam as ave-marias na capelinha, António caminhava pelo monte em direcção a casa. À sua chegada, Rosa contou tudo ao marido. Ele quis ir com ela. Protegê-la. Rosa não deixou. Ele acompanhá-la-ia apenas até ao portão do convento. Nessa noite não houve ceia. Estavam demasiado preocupados para pensar em comida. Finalmente a hora chegou. Rosa pôs um xaile pelos ombros, foi buscar o lenço branco, dobrou-o em triângulo, e juntou-se ao marido, que acendera uma lanterna. Caminharam juntos até ao convento. António ficou junto ao portão e Rosa meteu-se ao caminho até ao local indicado. E logo que a última badalada da meia-noite se extinguiu, surgiu um touro negro, numa corrida brutal, parecendo deitar chispas de fogo pelos olhos. Vendo-o assim, possante, enraivecido, numa correria louca direito a ela, Rosa perdeu toda a calma e gritou , alucinada:
- António! António! Ele vai matar-me!
Depois caíu no chão, desmaiada. Então ouviu-se um urro tremendo, e o touro desapareceu.
No ar pairava um lamento. Apenas um lamento. Um lamento numa voz de mulher:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
António correu em socorro da mulher. Levantou-a nos seus braços fortes e correu até casa.
Deitou-a sobre a cama e humedeceu-lhe as fontes enquanto chamava por ela. Rosa abriu os olhos mas o seu olhar foi de alucinação, os seus gestos de pavor intenso. E gritou:
- Tenho medo! Tirem-me o touro daqui! Tenho medo... Ele vai matar-me! António, António!!!
- Tenho medo! Tirem-me o touro daqui! Tenho medo... Ele vai matar-me! António, António!!!
António a custo susteve a mulher, que se debatia nos seus braços.
- Acalma-te, Rosa! Que tens? Ele partiu. Tu estás comigo! Foi uma loucura, mas tudo passou!
Da noite surgiu de novo o lamento:
- Desgraçaste-te e desgraçaste-nos! Não mais se quebrará o encanto!
Rosa pareceu, subitamente, acalmar-se. Olhou o marido e não o reconheceu. Ele quase chorava. Rosa tinha enlouquecido! A maldita profecia cumpria-se: Rosa desgraçara os mouros e desgraçara-se! O medo quebrara a sua promessa!
Não mais teve um minuto de sossego a jovem alentejana. Não mais foi feliz o jovem António. E segundo conta ainda o povo, em certa noite de cada ano, quando soam as doze badaladas da meia-noite, ouvem-se urros de um touro e uma voz de mulher que chora angustiada, gritando:
- Desgraçada, que te desgraçaste e nos desgraçaste!...
E o vento, fraco ou forte, leva nas suas asas esse grito de angústia pelos campos de Messejana.
Lendas de Portugal


