domingo, 16 de novembro de 2008

Lenda de Alcoa e Baça

Alcoa acabara de amanhar a pequena parcela de terra, que lhe coubera em herança. O Sol, numa fraqueza de agonia, desaparecia na linha do horizonte. E o rapaz, braços fortes de quem trabalha, rosto sadio, foi com a pressa de um apaixonado até à pequena barraca onde vivia a jovem dos seus cuidados. Ao vê-la, o seu rosto iluminou-se, como se aquele sombrio ocaso fosse a mais linda manhã de Maio. Ela correu para ele. O rapaz acariciou-lhe os cabelos.
- Meu amor! Se este ano tiver sorte, em breve estaremos casados.
A rapariga encostou a cabeça no peito do noivo, murmurando enleada:
- Quem me dera, meu querido, quem me dera! Tenho tanto medo do futuro.
Surpreendido, Alcoa obrigou-a a olhá-lo, levantando com uma das mãos o queixo bem recortado da sua linda noiva.
- Tens medo de quê? Não contas com os meus braços fortes, com o meu espírito de lutador? Estou habituado a amanhar a terra. Conheço todos os segredos da Natureza.
Ela sorriu-lhe.
- Eu sei, mas enquanto não me vir junto de ti , dentro da nossa casa... compreendes... vivo cheia de temor pelo que nos possa acontecer.
- Que hei-de dizer-te, Baça? Afasta esses pressentimentos! Ajude-me o tempo nas colheitas que estão para vir, e tu verás!
Deram as mãos com calor. Juras eternas voltaram a repetir-se. E o sol morria aos poucos, lá ao longe, enquanto os jovens trocavam um beijo de amor.
O tempo das colheitas estava próximo. Havia, porém, muita ansiedade no coração de todos os lavradores daquelas terras, para os lados de Leiria. E numa noite em que a ventania zunia lá fora, alguém bateu fortemente á porta da cabana do jovem Alcoa.
Assim que abriu a porta, uma rajada de vento entrou, quase o derrubando. Num impulso de coragem, Alcoa fechou a porta. Então, dentro da casa, o vento girou num rodopio e, de súbito, transformou-se num figura estranha que sorria, fitando os olhos pasmados do jovem aldeão. Ouviu-se uma gargalhada e o desconhecido falou:
- Não te amedrontes, não venho fazer-te mal. Quero apenas propor-te um negócio. Se estiveres de acordo comigo, dar-te-ei a possibilidade de conseguires colheitas maravilhosas, e poderás casar ainda este ano, como é teu desejo.
Alcoa arregalou os olhos, num espanto sincero.
- Mas como sabe o senhor que eu estou para casar?
Outra risada, ainda mais insistente, deixou um frio na alma do jovem Alcoa. Mas já o visitante respondia:
- Eu sei tudo, meu rapaz... Eu sei tudo! E só pretendo uma troca, uma simples troca. Eu dou-te a garantia da melhor colheita de todos os tempos e tu assinas um documento no qual me concedes toda a tua terra. Estabeleces um pacto comigo, tu dás-me apenas a tua terra, que se tornará maior e melhor e eu dou-te a certeza de poderes casar e ser feliz. Com o rendimento da própria terra terás riqueza e poder. Serás mais forte que os ricos e mais temido que os poderosos.
Com a voz fremente de alegria, Alcoa concordou.
Soou então a maior gargalhada dessa noite. A figura estranah diluiu-se no recanto da cabana e o vento voltou a soprar lá fora, com redobrada fúria.
O rapaz guardou segredo de tão misteriosa visita. A ninguém contou o que lhe fora proposto. Baça notou que algo mudara, e interpelou-o:
- Alcoa, eu sei que as tuas colheitas têm decorrido maravilhosamente. Mas só as tuas, e isso eu não entendo. Todos se queixam, todos... Só tu tens tido sorte!
Ele riu um riso forte, que a impressionou. A rapariga estremeceu. Mas já ele lhe dizia adeus, afastando-se a passos largos.
As colheitas chegaram ao fim. Alcoa não cabia em si de contente, tinham excedido todas as suas expectativas. Estava rico! Riquíssimo! Foi então que a estranha e misteriosa figura visita de tempos atrás voltou a fazer a sua aparição.
- Cá estou eu como prometi, podes casar quando quiseres. Mas primeiro assina este documento conforme prometeste. E com sangue... Este documento só poderá ser assinado com sangue... O teu sangue!
Alcoa suspirou.
- É bem pouco o que me pede em troca de tanto que me dá. Aqui tem a minha assinatura.
A partir dessa noite, os negócios de Alcoa começaram a prosperar de um modo quase aflitivo de tão extraordinário que era. Os vizinhos começaram a olhar o rapz com desconfiança e ficou decidido que um dos mais velhos fosse falar com Alcoa.
- Olha, rapaz! Venho falar-te em nome dos homens desta terra. Tu és ainda muito novo e inexperiente na vida, já o mesmo não acontece connosco. Somos velhos e sabemos alguma coisa. Pensamos que tu tens um pacto com o Demónio. Só assim se explica que as tuas terras estejam cada vez melhores enquanto as nossas parecem cada vez mais ruins. Pois tem cuidado, Alcoa! Tem cuidado!
A fúria transtornou a expressão do jovem lavrador. Levantou o braço contra o velho, mas uma voz de mulher gritou o seu nome, suspendendo-lhe o gesto. Com voz tremente, Baça disse:
- Dizem que fizeste um pacto com o Demónio... E vendo-te como estás, desfigurado, acredito que é verdade. Tenho medo, Alcoa... tenho medo!
O jovem gritou colérico:
- Se acreditas... vai-te! Desaparece da minha vista!
Correndo como louca, a jovem Baça abandonou o noivo. Andou sem destino três dias e três noites. Chorando a sua desdita. A morte veio encontrá-la quando acabara de chorar a sua última lágrima. E conta a lenda que essas lágrimas reunidas se transformaram numa pequena ribeira, à qual foi dada o nome de Baça.
O jovem Alcoa caiu num desespero terrível quando soube da morte da sua amada. E diz-se que renegou por completo o pacto que fizera e jurou a Deus doar as suas terras a Santa Maria se conseguisse alcançar o perdão de Baça. Chorava Alcoa, sem cessar, a mágoa de ter sido ambicioso. Chorava de noite e dia. E tanto chorou que se transformou num rio: o rio Alcoa.
E nas noites luarentas, as águas do Alcoa murmuravam, quebrando o silêncio:
- Baça, meu amor. Perdoa-me! Peço-te por tudo que me perdoes! Baça, jurei dar as minhas terras a Santa Maria, se tu me perdoasses...
Pois numa dessas noites outra voz respondeu às lamentações e aos apelos do rio Alcoa.
- Sim... Já que tanto o desejas vou perdoar-te, para que estas terras sejam na verdade de Santa Maria, e tu possas remediar assim os teus erros passados. Vou juntar-me a ti, Alcoa!
E ali mesmo, a ribeira Baça se misturou com o rio Alcoa, desaguando no seu lado esquerdo, que é o lado do coração...
Desde esse instante, o rio Alcoa passou a denominar-se Alcobaça e todas essas terras ficaram devotadas a Santa Maria, cumprindo assim a jura feita.
E diz-se que em certas noites se continuam a escutar murmúrios de vozes humanas, no meio das águas do rio.
Murmúrios apaixonados.
Murmúrios de amor.
Lendas de Portugal

sábado, 8 de novembro de 2008

Lenda da Ribeira da Sertã

Há muitos anos, viviam numa casita pobre do lugar um rapaz bastante novo e a mãe viúva. O rapaz chamava-se José, e era o único amparo da mãe desde que o pai morrera. Trabalhava todo o dia, enquanto a luz do Sol lhe permitia ver. À noite, voltava para junto da mãe, e ali ficava até novo dia despontar.
Certa vez, porém o calor apertou e o rapaz, já cansado, deitou-se no chão, entre uma gruta e a Ribeira, ao abrigo de uma sombra. Sem dar por isso, adormeceu. E quando a noite veio ele continuava a dormir...
Despertaram-no vozes femininas falando umas com as outras, quase ao mesmo tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. Era noite cerrada. No entanto, do lado da gruta vinha uma luz muito branca, como se a própria Lua lá estivesse escondida. José ergueu-se de um pulo. Embora não fosse medroso, o coração bateu-lhe com mais força. Seriam as mouras da Ribeira da Sertã? Seriam elas?...
As vozes soaram mesmo junto dele. Olhou e viu as mouras. Eram lindas! Principalmente uma delas que se aproximou dele. José perguntou:
- Que me queres?
Mas já uma outra moura surgia da gruta, afastando a que ele havia distinguido.
- José! Tu és um bom rapaz, forte, sério, trabalhador. Podes, se quiseres, salvar uma de nós. Somos as mouras encantadas da Ribeira da Sertã. Escolhe a que desejas, porque a que salvares será para ti, assim como todo o ouro que lhe pertence!
José abria os olhos num espanto. A moura insistiu:
- Responde, José: qual de nós tu preferes?
José olhou em volta, procurando aquela que primeiro lhe sorrira. A chefe das mouras ordenou então:
- Almina! Podes aproximar-te. Ele escolheu-te. Mas espero que não o tenhas enfeitiçado com o teu olhar! Bem sabes o que isso poderia representar para ti... e para ele.
A moura tirou de sob o manto um lenço branco atado nas quatro pontas, contendo algo que não se via mas que aparentava ser pesado, e entregou-o ao rapaz, dizendo:
- Toma e guarda-o bem! Nesse lenço vai a tua felicidade. Tem cuidado, não o abras! Deixa-o ficar assim até que voltemos a aparecer-te.
José acenou com a cabeça. As mouras desapareceram. A luz prateada extinguia-se junto à gruta. A escuridão voltava a envolvê-lo.
Passaram dias, semanas, meses. José pensava desesperadamente nas mouras da Ribeira da Sertã. Passou o Verão. Passou o Outono. O Inverno alagou os campos. A Lua ficou escondida por detrás de densas nuvens. Nem mouras nem luar. José não dormia. Não comia capazmente. Já não era o mesmo homem de trabalho. O seu segredo sufocava-o. E um dia, não podendo conter-se mais, desabafou com a sua mãe. Esta ao ver o lenço atado pelas quatro pontas, não resistiu e num ápice o lenço foi desatado. Um pedaço de carvão caiu no solo. Carvão das brasas dos madeiros. A mãe setenciou:
- Brincaram contigo. Ainda bem que fomos mais espertos que elas.
José apanhou o carvão. Colocou-o de novo no lenço, atou-o e guardou-o no bolso. Nessa noite, porém, não conseguiu dormir.
A Primavera chegou e, um dia, José viu-se de súbito na Ribeira da Sertã, do lado das escarpas. Na sua frente, as mouras, pálidas e tristes. Não cantavam nem riam. A chefe do grupo dirigiu-se ao jovem aldeão:
- José! Devolve-nos o lenço que te demos.
Ele tirou o lenço do bolso e entregou-lho. Ela desatou-o. E do lenço caíram moedas de ouro. O rapaz abriu os olhos num espanto. A moura disse:
- Tu viste carvão, não é assim? Tu e a tua mãe! Faltaste à tua promessa. Perdeste a tua felicidade e a de Almina. Ela está no fundo da gruta de onde não mais poderá sair. Quanto a ti, trabalharás de sol a sol sem nunca amealhares uma só moeda. A curiosidade perdeu-te.
As mouras desapareceram numa espécie de neblina que envolveu o próprio José. Desesperado, sentou-se numa saliência rochosa e chorou amargamente. Mas as mouras da Ribeira da Sertã não voltaram para o consolar. José não foi mais o mesmo rapaz alegre e trabalhador. Todos os seus momentos vagos eram para a Ribeira da Sertã. Punha-se diante da gruta, a chorar e a suplicar às mouras que o perdoassem. Mas a gruta conservava-se muda. E os aldeões, vendo-o e ouvindo-o naquela aflição, tremiam de pavor e afastavam-se do local fatídico, não fosse surgir-lhes pela frente as mouras da Ribeira da Sertã...

Lendas de Portugal

Helena

Desde que há registo que os homens acreditam em Helena.
Acreditam nela tanto como personagem histórica real, como na sua qualidade de arquétipo de beleza, de feminilidade, de sexo, de perigo.
Os admiradores de Helena e os seus detractores têm sido muitos e variados. Freiras medievais enfatizaram os seus amores, no Renascimento os "rebeldes" davam às filhas o nome de Helena, apesar de a categorizarem como um nome que traria desgraça. No século XVII, os artistas recebiam encomendas para decorarem edíficios com cenas gigantes sobre o rapto de Helena. No final do século XVIII e início do século XIX o nome Helena foi usado como termo ofensivo, para significar uma coquete, uma prostituta, uma mulher imoral. Hoje é invocada como uma poderosa bruxa de magia branca, outros a aclamam como o primeiro modelo exemplar feminino de que há registo.
Helena encoraja a especulação no seu sentido mais verdadeiro - segurando um espelho, frente ao rosto sempre em mutação, para ver que mundos podem ser vislumbrados no reflexo.

"Não há arte em transformar uma deusa em bruxa, uma virgem em prostituta, mas a operação inversa, dar dignidade àquilo que foi desdenhado, tornar o desprezado desejado, tal exige ou arte ou carácter." (J.W. Goöethe).

A História está ao mesmo tempo perplexa e encantada com Helena; podemos encontrar quase três milénios de atitudes ambíguas para com ela. Helena é díficil de categorizar por boas razões; seguir Helena através dos tempos traz à superfície três formas suas distintas, ainda que interligadas. Quando se fala de Helena, descreve-se uma trindade, princesa, deusa e prostituta.
A Helena mais familiar é a brilhante beldade real das epopeias, a Helena de Homero, a princesa espartana com paternidade divina disputada pelos heróis na Grécia e depois conquistada pela riqueza de Menelau. A teimosa e caprichosa aristocrata que abandonou os gregos, atravessou o Egeu e que depois definhou em Tróia, odiada por todos os que a rodeavam. A figura enigmática que navegou de volta a Esparta, de volta para uma cama que deixara fria. A criatura- maculada e, no entanto, estranhamente dignificada - que demonstrou que a beleza feminina era algo tanto a recear como a desejar.
Foi um ídolo da beleza e da sexualidade femininas tanto adorado como desprezado...

"O meu nome pode estar em muitos sítios: a minha pessoa só pode estar num." (Eurípides, Helena).