quarta-feira, 16 de julho de 2008

Lenda dos Sete Ais


Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros em 25 de Outubro de 1147, o castelo de Sintra rendeu-se sem resistência, apenas sob a condição dos mouros seus moradores se poderem estabelecer em terras vizinhas, o que lhes foi outorgado.
Entre os cavaleiros mais chegados ao rei, estava o jovem D. Mendo de Paiva, um dos designados pelo monarca para ocupar o castelo. D. Mendo foi o primeiro a subir a serra de Xentra, (o nome de Sintra vem de Xentra, como lhe chamava o geógrafo árabe Edrisi, que viveu no século XII). Chegado ao alto parou un instante. Fazia-se a retirada. Os mouros mais destacados utilizavam uma saída secreta, que D. Mendo não tardou a descobrir - no preciso momento em que uma jovem moura ia a sair por ela, acompanhada da sua velha aia. Ao vê-lo, a fugitiva afligiu-se, pois esperava poder escapar ao olhar dos vencedores. Com o nervosismo da surpresa, gritou. Zuleima, a sua velha aia, ficou ainda mais aflita. E indagou, com o medo estampado no rosto:
- Anasir, por que gritaste?
Ela respondeu, mal refeita ainda do susto:
- Não pude conter este meu ai.
D. Mendo sorriu. A velha aia perguntou:
- Não ides permitir que partamos? Temos licença de sair em liberdade. O que pretendeis são os nossos bens e as nossas terras, não é assim? Pois aí fica tudo! Podemos partir?
D. Mendo respirou fundo, e quase maliciosamente retorquiu:
- Sim, podes partir. Deixa-me tudo... sem esquecer a tua querida ama!
Aflita, Anasir, soltou novo grito de susto. Logo, Zuleima lhe pegou nas mãos, presa de novo pavor.
- Anasir, minha querida ama! Já é o segundo ai num tão curto espaço de tempo! Evitai essa exclamação, peço-vos!
Passos apressados soaram perto. Anasir assustou-se e gritou. Mas já D. Mendo lhe tapava a boca com a mão:
- Senhora! É preciso que vos leve daqui sem que vos vejam!
Porém, mais pálida ainda, Zuleima apontava a sua jovem ama quase sem poder falar. Anasir indagou o que se passava, ao que Zuleima respondeu:
- Ouvi! Ouvi o vosso terceiro ai num espaço de tempo tão curto! Prometei-me! Prometei-me, Anasir, que não soltareis mais nenhum ai! Fazei essa graça à vossa humilde serva!
A princesa acalmou-a e prometeu que faria os possíveis para não pronunciar mais nenhum ai.
Entretanto, os cristãos chegavam junto ao corredor que dava para a parte sul da serra. Anasir assustou-se e soltou o quarto ai. Zuleima agarrou-lhe os vestidos. Nasceram lágrimas nos seus olhos.
- Senhora, senhora! Haveís prometido! E afinal...
Anasir parecia confusa. Não compreendia...
As vozes dos cristãos estavam mais perto. D. Mendo levou ambas para a casinha do terreiro onde instalou a velha ama e a princesa moura.
- D. Mendo, - disse Anasir -, gosto desta casinha. Creio que ficarei aqui até o desejardes.
Ele apertou entre as suas mãos, as mãos delicadas da jovem moura e afirmou:
- Querida Anasir! Prometo que sereis feliz!
Anasir e Zuleima viviam semicativas na casinha do terreiro, onde D. Mendo as escondera de mouros e cristãos. Amava Anasir e não queria perdê-la. Desejava a sua permanente companhia.
Uma tarde descobriu que mouros inimigos rondavam aqueles sítios e entre eles encontrava-se Aben-Abed, que tinha abandonado Anasir ao ver-se cercado pelos cristãos. Ao fugir, tinha perdido o direito ao amor de Anasir. D. Mendo avisou Zuleima para que não saíssem de casa.
Questionou Zuleima sobre a sua preocupação quando Anasir pronunciava um ai, ao que a ama lhe confidenciou:
- Quando a minha ama nasceu, uma feiticeira disse que Anasir morreria ao pronunciar o sétimo ai.
- Não acredito em profecias de feiticeiras - respondeu D. Mendo - mas, de qualquer modo, tentaremos evitar que Anasir volte a proferir tal exclamação.
Anasir surgiu, sorrindo.
- Que surpresa agradável, meu senhor! Zuleima, porque não me chamaste?
- D. Mendo assim o determinou.
Ela tentou ralhar-lhe:
- Ai, meu senhor, por que fizeste isso?
Zuleima empalideceu. Anasir deixou de sorrir. Voltou-se para o cavaleiro:
- D. Mendo! Achais que Zuleima se assusta com razão quando eu grito: Ai?...
Zuleima chorava em silêncio.
- Senhora, soltaste mais dois ais. São já seis, senhora. Seis!
Anasir olhou perplexa para Zuleima.
- E isso que tem? Desde que os pronuncio é que conheço a felicidade! E a vós a devo, D. Mendo!
D. Mendo, apertou nos braços a jovem moura, e disse-lhe que se iria ausentar por uns tempos. D. Afonso Henriques tinha solicitado os seus serviços.
Sete dias se passaram. E, de súbito, a algazarra de um grupo de mouros que haviam entrado no terreiro pôs Anasir e Zuleima em sobressalto. Entre os mouros um se destacou. Era Aben-Abed que vinha reclamar Anasir. Zuleima protegeu a sua ama com o corpo. Aben-Abed levantou o alfange e sem mais palavras cortou de um só golpe a cabeça da velha e dedicada aia. Louca de aflição, Anasir soltou o sétimo ai, que ficou repercutindo no espaço.
- Maldito sejas, Aben-Abed!
A voz, porém, extinguiu-se-lhe na garganta. O mouro ferira-a no peito, e era mortal, a ferida. No horizonte surgiu uma chama de fogo. Aben-Abed fugia pela segunda vez, abandonando as suas vítimas. O silêncio voltou a reinar na casinha do terreiro. Um silêncio profundo. Um silêncio de morte.
Quando D. Mendo regressou, ficou louco de dor. Deu ao terreiro o nome de Seteais em memória da jovem moura que ele tanto amava. Ao sair dali, jurou vingança. E nunca D. Afonso Henriques chegou a compreender a razão porque o seu súbdito D. Mendo de Paiva se tornara, desde a tomada do castelo de Sintra, um dos mais ferozes caçadores de mouros...
Lendas de Portugal


terça-feira, 15 de julho de 2008

Jasão

Jasão era filho de de Eson, rei de Ialcos, tendo sido criado pelo Centauro Quiron. A lenda conta que Pélias, irmão de Eson, usurpara o trono da Tessália, que competia ao último. Jasão, como filho herdeiro de Eson, viria a ser futuramente um obstáculo à continuação do reinado de Pélias, pelo que resolveu eliminá-lo. Eson, ao aperceber-se do intuito do irmão, cobriu-se de luto, simulou a morte do filho e confiou-o aos cuidados de Quiron. Pélias tranquilizou-se perante o desaparecimento do sobrinho, mas, um oráculo avisou-o de que um homem, com sandálias apenas em um dos pés, poria em risco o seu reinado.
Tempos depois, já Jasão era homem, veio a conhecer Pélias, o qual ignorando tratar-se do seu sobrinho, convidou-o para uma festa. Jasão aceitou o convite, e, tendo perdido, no caminho, uma das sandálias, apresentou-se apenas com um dos pés calçado. Pélias, lembrando-se então do oráculo, perguntou-lhe:
- Que farias, meu amigo, se fosses rei, e um oráculo predissesse que um teu visitante viria a destronar-te?
- Mandá-lo-ia buscar o Velo de Ouro. - Respondeu Jasão.
- Pois bem, és tu, precisamente, o indicado pelo oráculo; vai, portanto, buscar o precioso talismã; se me o apresentares, eu te restituirei o trono. - assim disse Pélias.
Jasão obedeceu e auxiliado por Minerva, construiu a nau Argos, cujo significado é A Veloz, e nela embarcou com mais 52 tripulantes rumando à Cólchida, região da Ásia banhada pelo Fonde. Na presença do rei Eétes, intimou-o a entregar o Velo que se encontrava em seu poder.
O rei, certo de mandá-lo à morte, impôs-lhes 4 condições:
- Pôr a canga em dois touros de pés e cornos de bronze, que deitavam fogo pelas narinas, e atrelá-los a uma charrua de diamante;
- Lavrar, com eles, uma vasta área, e nela semear os dentes do dragão Cadmo;
- Vencer os gigantes armados que viessem a nascer dessas sementes;
- Enfrentar e matar o dragão que guardava o Velo.
Jasão, tendo conquistado o amor de Medéa, filha do rei e hábil feiticeira, dela obteve, sob promessa de casamento, todos os elementos necessários à completa vitória. Recebeu um bálsamo maravilhoso para ser untado no seu corpo e nas suas armas, tornando-os invulneráveis ao fogo, e foi-lhe recomendado que, quando nascessem os gigantes, atirasse uma pedra no meio deles, o que os faria lutar uns contra os outros, até se exterminarem.
Essas recomendações, seguidas a risco, deram o resultado desejado. Restava apenas vencer o dragão. Para isso, Medéa, com uma bebida mágica, fê-lo adormecer, e Jasão, encontrando-o inerte, em profundo sono, atravessou-o com sua afiada lança, tombando-o por terra. Em seguida, apossou-se do Velo de Ouro e fugiu com Medéa.
Chegando a Tessália, entregou-o a Pélias e reclamou o prometido. O soberano recusou-se. Medéa arquitectou uma terrível vingança. Falou com as filhas do usurpador e devido à adiantada idade do pai, disse-lhes que elas poderiam facilmente rejuvenescê-lo: deviam fazê-lo em pedaços, e deitá-lo a ferver num caldeirão, com determinadas ervas. As filhas de Pélias não vacilaram em matar o velho pai, reduzi-lo a pedaços, esperando em vão, vê-lo ressurgir jovem e formoso. Eliminado, assim, Pélias, Jasão reinvindicou o trono.
Apesar dos inolvidáveis serviços que Medéa lhe prestou, Jasão, ingratamente, abandonou-a para se ligar a Creusa, filha de Príamo e de Hécuba, e primeira esposa de Enéas.
Medéa vingou-se de forma terrível. Matou o filho do casal e enviou a Creusa, como presente de núpcias, uma túnica envenenada que a devorou em chamas, fugindo, em seguida, para Atenas. Desesperado por tão grande infortúnio, Jasão suicidou-se.

Belerofonte

Belerofonte era filho de Glaucos, (o primeiro filho de Neptuno e de Nais) e de Eprimedes. Neto de Sísifo, filho de Éolo e rei de Corinto. Sísifo ficou célebre pelas suas astúcias contra os deuses. Julgado pelo tribunal de Hades foi condenado a empurrar um enorme rochedo até ao alto de uma abrupta montanha, donde caía ao chegar, forçando-o a recomeçar o incessante trabalho.
Belerofonte era um aficcionado pelas caçadas. Numa delas, matou acidentalmente o seu irmão, Beleros. Desgostoso, exilou-se na corte de Prétos, o rei de Argos. A esposa de Argos, a rainha Anteia apaixonou-se loucamente por Belerofonte. Este recusou os seus avanços amorosos. Despeitada, acusou-o perante o esposo, de lhe haver feito uma proposta desonesta. Argos acreditou na esposa, mas, apesar do seu desejo de vingança, não queria faltar com os deveres de hospitalidade. Assim, enviou Belerofonte ao reino de Lícia, com uma carta de recomendação ao seu rei, Iobatas. Essa carta ocultava sinais nas entrelinhas que depois de descodificados significavam: morte ao portador.
Iobatas recebeu festivamente Belerofonte, mas ao ler a carta de que ele era portador, mandou-o combater a Quimera, certo de que morreria na tarefa.
A Quimera era um monstro que devastava a Lícia. Era filha de Equídna de Tifon (monstro fabuloso, meio mulher, meio serpente) e irmã de Cérbero ( o cão de três cabeças que guardava o Palácio de Hades). A Quimera possuía cabeça de leão, corpo de cabra e rabo de serpente. Da sua boca dardejavam turbilhões de fogo e fumo. Há quem a considere o símbolo de uma montanha vulcânica cujos flancos eram povoados de cabras selvagens, ou ainda, a personificação da tempestade, o seu pêlo simbolizaria as nuvens; a sua cabeça de leão lembraria o trovão a rugir e o seu rabo de serpente significaria o raio.
Belerofonte, com o auxílio de Pégaso, o cavalo alado nascido do sangue de Medusa quando decapitada pelo herói Perseu, matou-a. Montado no seu corcel alado, cravou-lhe na garganta flamejante, uma lança de chumbo.
Iobatas ficou satisfeito, mas para cumprir o que Prétos lhe pedia, o rei mandou Belerofonte combater as Amazonas, as mulheres guerreiras da Cítia. Não admitiam homens na sua companhia, apenas os recebendo uma vez por ano. Enjeitavam os filhos varões, e queimavam o seio direito, para melhor atirarem com o seu arco.
Mais uma vez Belerofonte saiu vitorioso da batalha. Quando regressava a Lícia, foi atacado por guerreiros encarregados de o assassinar. Exterminou-os.
Iobatas rendeu-se perante tanta bravura e deu-lhe a sua filha em casamento, instituindo-o como seu sucessor.
Belerofonte, envaidecido pelos seus triunfos, quis atingir as alturas do Olimpo, de forma a chegar aos deuses.
Júpiter, enviou uma vespa que picou o dorso de Pégaso, fazendo-o sacudir, no vácuo, o seu cavaleiro. Pégaso galopou no espaço, até ao céu, onde se transformou em constelação.

Ainda hoje, a expressão "carta de Belerofonte" serve para designar uma carta escrita contra o portador, ou, simplesmente, uma recomendação fingida.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Lenda da Serra da Nó

Era uma vez um jovem mouro conquistador de terras e de corações. De nome Abakir, reinava naquela região e a sua fama de invencibilidade abria-lhe sempre o caminho do desejo. Não havia terra que ele ambicionasse, que não acabasse por conquistar. Não havia mulher de quem ele se enamorasse, que não acabasse por ser sua. Dizia-se que o seu castelo, erguido em plena Serra da Nó, era o mais sumptuoso do mundo, tal a gama de riquezas que albergava.
Um dia, quando Abakir cavalgava pela serra, viu a figura grácil de uma simples pastora de gado, que lhe fez bater mais forte o coração. No dia seguinte ordenou aos seus vassalos que lhe trouxessem a pastora.
- Quero que fiques comigo para sempre! - disse o jovem mouro.
A pastora recusou. A todas as promessas de riqueza e de uma vida melhor, disse não.
Abakir perdeu a paciência. Em altos berros, mandou que encerrassem a pastora numa das torres do castelo. Ela não mais recobraria a liberdade, enquanto não lhe pedisse perdão.
E o tempo foi passando.
E quem cedeu foi o jovem rei mouro. Certa noite, voltou à presença da sua prisioneira.
- A tua lembrança é mais forte que a minha vontade. Venceste! Ofereço-te o meu amor. Que queres tu de mim?
A moura fitou-o bem fundo nos olhos.
- Quero que te afastes das tuas outras mulheres. Ou serei a única mulher para ti, ou não serei tua.
- Aceito! De hoje em diante, serás a única.
- Ainda não disse tudo, - continuou a jovem -, não basta que te afastes das outras mulheres. É preciso também que me jures que não mais pensarás em qualquer outra. Assim o prometi a mim própria, quando te vi pela primeira vez. Juras?
- Juro!
E desse modo se selou para a eternidade um juramento de amor.
Abakir cumpriu todas as suas promessas. A bela pastora transformou-se em senhora e dona do reino, dominando o coração do rei.
Porém, um perigo se levantava no horizonte. Os cristãos avançavam de terra em terra na sua ânsia de conquista. Aqui e além, os mouros rendiam-se, outros fugiam. Poucos restavam, e entre esses poucos, ele, Abakir.
Abakir reuniu os seus amigos mais dedicados e a sua companheira.
- A hora é trágica. Aqueles que quiserem partir podem fazê-lo, levando tudo o que lhes for possível. Eu ficarei! Não posso pensar em ceder diante de um inimigo que tantas e tantas vezes consegui derrotar. Portanto, repito, eu ficarei!
- E eu ficarei também!
A voz da que fora pastora foi a única que se escutou, no meio do silêncio sepulcral. Abakir sorriu. Já o esperava...
Quase solitários no castelo da Serra da Nó, ambos continuaram a viver o seu grande amor terreno. Até que chegou a hora decisiva. A vanguarda cristã abria caminho para a conquista de mais um castelo: o famoso castelo da Serra da Nó.
O jovem rei enlaçou-se com a sua amada, num derradeiro abraço. E as suas bocas uniram-se no último beijo.
Abakir pegou no Alcorão, quebrou os sete selos do Livro, abriu-o e começou a ler. Depois, prostrou-se por sete vezes, beijando a terra. Por sete vezes despediu-se da vida e do mundo. Por sete vezes amaldiçoou o inimigo, que sentia muito perto de si. E, por fim, com a mão esquerda, tal como aprendera, fez um sinal de magia sobre a sua amada e sobre o castelo, enquanto pronunciava baixinho palavras misteriosas.
Quando os cristãos chegaram já não encontraram o castelo. Nem encontraram a linda moura. Nem encontraram Abakir, o jovem rei sucumbido. Não havia vestígios de qualquer deles em toda a serra da Nó, entre Ponte de Lima e Viana do Castelo. E nasceu a suposição de que tudo desaparecera por feitiço de Abakir.
Se alguém conseguir penetrar pela gruta que dá entrada para o castelo soterrado, ficará senhor de uma fortuna enorme. Toda a riqueza do imenso tesouro escondido no Castelo da Serra da Nó.
E diz-se que nas noites de luar se vê uma figura diáfana de mulher, reclinada em qualquer rochedo ou passeando pelas cristas da serra. Chamam-lhe a Guarda do Castelo. Ai daquele que a seguir, arrastado pela tentação! Não mais voltará à superfície da terra.
E diz-se que Abakir ali ficou enfeitiçado, por sua própria vontade, para defender um amor que o tempo não pode matar. E que às vezes aparece de improviso, sob as mais variadas formas, aos que tentam descobrir o mistério do castelo encantado.

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