Sábado, 8 de Novembro de 2008

Lenda da Ribeira da Sertã

Há muitos anos, viviam numa casita pobre do lugar um rapaz bastante novo e a mãe viúva. O rapaz chamava-se José, e era o único amparo da mãe desde que o pai morrera. Trabalhava todo o dia, enquanto a luz do Sol lhe permitia ver. À noite, voltava para junto da mãe, e ali ficava até novo dia despontar.
Certa vez, porém o calor apertou e o rapaz, já cansado, deitou-se no chão, entre uma gruta e a Ribeira, ao abrigo de uma sombra. Sem dar por isso, adormeceu. E quando a noite veio ele continuava a dormir...
Despertaram-no vozes femininas falando umas com as outras, quase ao mesmo tempo. Abriu os olhos e olhou em volta. Era noite cerrada. No entanto, do lado da gruta vinha uma luz muito branca, como se a própria Lua lá estivesse escondida. José ergueu-se de um pulo. Embora não fosse medroso, o coração bateu-lhe com mais força. Seriam as mouras da Ribeira da Sertã? Seriam elas?...
As vozes soaram mesmo junto dele. Olhou e viu as mouras. Eram lindas! Principalmente uma delas que se aproximou dele. José perguntou:
- Que me queres?
Mas já uma outra moura surgia da gruta, afastando a que ele havia distinguido.
- José! Tu és um bom rapaz, forte, sério, trabalhador. Podes, se quiseres, salvar uma de nós. Somos as mouras encantadas da Ribeira da Sertã. Escolhe a que desejas, porque a que salvares será para ti, assim como todo o ouro que lhe pertence!
José abria os olhos num espanto. A moura insistiu:
- Responde, José: qual de nós tu preferes?
José olhou em volta, procurando aquela que primeiro lhe sorrira. A chefe das mouras ordenou então:
- Almina! Podes aproximar-te. Ele escolheu-te. Mas espero que não o tenhas enfeitiçado com o teu olhar! Bem sabes o que isso poderia representar para ti... e para ele.
A moura tirou de sob o manto um lenço branco atado nas quatro pontas, contendo algo que não se via mas que aparentava ser pesado, e entregou-o ao rapaz, dizendo:
- Toma e guarda-o bem! Nesse lenço vai a tua felicidade. Tem cuidado, não o abras! Deixa-o ficar assim até que voltemos a aparecer-te.
José acenou com a cabeça. As mouras desapareceram. A luz prateada extinguia-se junto à gruta. A escuridão voltava a envolvê-lo.
Passaram dias, semanas, meses. José pensava desesperadamente nas mouras da Ribeira da Sertã. Passou o Verão. Passou o Outono. O Inverno alagou os campos. A Lua ficou escondida por detrás de densas nuvens. Nem mouras nem luar. José não dormia. Não comia capazmente. Já não era o mesmo homem de trabalho. O seu segredo sufocava-o. E um dia, não podendo conter-se mais, desabafou com a sua mãe. Esta ao ver o lenço atado pelas quatro pontas, não resistiu e num ápice o lenço foi desatado. Um pedaço de carvão caiu no solo. Carvão das brasas dos madeiros. A mãe setenciou:
- Brincaram contigo. Ainda bem que fomos mais espertos que elas.
José apanhou o carvão. Colocou-o de novo no lenço, atou-o e guardou-o no bolso. Nessa noite, porém, não conseguiu dormir.
A Primavera chegou e, um dia, José viu-se de súbito na Ribeira da Sertã, do lado das escarpas. Na sua frente, as mouras, pálidas e tristes. Não cantavam nem riam. A chefe do grupo dirigiu-se ao jovem aldeão:
- José! Devolve-nos o lenço que te demos.
Ele tirou o lenço do bolso e entregou-lho. Ela desatou-o. E do lenço caíram moedas de ouro. O rapaz abriu os olhos num espanto. A moura disse:
- Tu viste carvão, não é assim? Tu e a tua mãe! Faltaste à tua promessa. Perdeste a tua felicidade e a de Almina. Ela está no fundo da gruta de onde não mais poderá sair. Quanto a ti, trabalharás de sol a sol sem nunca amealhares uma só moeda. A curiosidade perdeu-te.
As mouras desapareceram numa espécie de neblina que envolveu o próprio José. Desesperado, sentou-se numa saliência rochosa e chorou amargamente. Mas as mouras da Ribeira da Sertã não voltaram para o consolar. José não foi mais o mesmo rapaz alegre e trabalhador. Todos os seus momentos vagos eram para a Ribeira da Sertã. Punha-se diante da gruta, a chorar e a suplicar às mouras que o perdoassem. Mas a gruta conservava-se muda. E os aldeões, vendo-o e ouvindo-o naquela aflição, tremiam de pavor e afastavam-se do local fatídico, não fosse surgir-lhes pela frente as mouras da Ribeira da Sertã...

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