
Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros em 25 de Outubro de 1147, o castelo de Sintra rendeu-se sem resistência, apenas sob a condição dos mouros seus moradores se poderem estabelecer em terras vizinhas, o que lhes foi outorgado.
Entre os cavaleiros mais chegados ao rei, estava o jovem D. Mendo de Paiva, um dos designados pelo monarca para ocupar o castelo. D. Mendo foi o primeiro a subir a serra de Xentra, (o nome de Sintra vem de Xentra, como lhe chamava o geógrafo árabe Edrisi, que viveu no século XII). Chegado ao alto parou un instante. Fazia-se a retirada. Os mouros mais destacados utilizavam uma saída secreta, que D. Mendo não tardou a descobrir - no preciso momento em que uma jovem moura ia a sair por ela, acompanhada da sua velha aia. Ao vê-lo, a fugitiva afligiu-se, pois esperava poder escapar ao olhar dos vencedores. Com o nervosismo da surpresa, gritou. Zuleima, a sua velha aia, ficou ainda mais aflita. E indagou, com o medo estampado no rosto:
- Anasir, por que gritaste?
Ela respondeu, mal refeita ainda do susto:
- Não pude conter este meu ai.
D. Mendo sorriu. A velha aia perguntou:
- Não ides permitir que partamos? Temos licença de sair em liberdade. O que pretendeis são os nossos bens e as nossas terras, não é assim? Pois aí fica tudo! Podemos partir?
D. Mendo respirou fundo, e quase maliciosamente retorquiu:
- Sim, podes partir. Deixa-me tudo... sem esquecer a tua querida ama!
Aflita, Anasir, soltou novo grito de susto. Logo, Zuleima lhe pegou nas mãos, presa de novo pavor.
- Anasir, minha querida ama! Já é o segundo ai num tão curto espaço de tempo! Evitai essa exclamação, peço-vos!
Passos apressados soaram perto. Anasir assustou-se e gritou. Mas já D. Mendo lhe tapava a boca com a mão:
- Senhora! É preciso que vos leve daqui sem que vos vejam!
Porém, mais pálida ainda, Zuleima apontava a sua jovem ama quase sem poder falar. Anasir indagou o que se passava, ao que Zuleima respondeu:
- Ouvi! Ouvi o vosso terceiro ai num espaço de tempo tão curto! Prometei-me! Prometei-me, Anasir, que não soltareis mais nenhum ai! Fazei essa graça à vossa humilde serva!
A princesa acalmou-a e prometeu que faria os possíveis para não pronunciar mais nenhum ai.
Entretanto, os cristãos chegavam junto ao corredor que dava para a parte sul da serra. Anasir assustou-se e soltou o quarto ai. Zuleima agarrou-lhe os vestidos. Nasceram lágrimas nos seus olhos.
- Senhora, senhora! Haveís prometido! E afinal...
Anasir parecia confusa. Não compreendia...
As vozes dos cristãos estavam mais perto. D. Mendo levou ambas para a casinha do terreiro onde instalou a velha ama e a princesa moura.
- D. Mendo, - disse Anasir -, gosto desta casinha. Creio que ficarei aqui até o desejardes.
Ele apertou entre as suas mãos, as mãos delicadas da jovem moura e afirmou:
- Querida Anasir! Prometo que sereis feliz!
Anasir e Zuleima viviam semicativas na casinha do terreiro, onde D. Mendo as escondera de mouros e cristãos. Amava Anasir e não queria perdê-la. Desejava a sua permanente companhia.
Uma tarde descobriu que mouros inimigos rondavam aqueles sítios e entre eles encontrava-se Aben-Abed, que tinha abandonado Anasir ao ver-se cercado pelos cristãos. Ao fugir, tinha perdido o direito ao amor de Anasir. D. Mendo avisou Zuleima para que não saíssem de casa.
Questionou Zuleima sobre a sua preocupação quando Anasir pronunciava um ai, ao que a ama lhe confidenciou:
- Quando a minha ama nasceu, uma feiticeira disse que Anasir morreria ao pronunciar o sétimo ai.
- Não acredito em profecias de feiticeiras - respondeu D. Mendo - mas, de qualquer modo, tentaremos evitar que Anasir volte a proferir tal exclamação.
Anasir surgiu, sorrindo.
- Que surpresa agradável, meu senhor! Zuleima, porque não me chamaste?
- D. Mendo assim o determinou.
Ela tentou ralhar-lhe:
- Ai, meu senhor, por que fizeste isso?
Zuleima empalideceu. Anasir deixou de sorrir. Voltou-se para o cavaleiro:
- D. Mendo! Achais que Zuleima se assusta com razão quando eu grito: Ai?...
Zuleima chorava em silêncio.
- Senhora, soltaste mais dois ais. São já seis, senhora. Seis!
Anasir olhou perplexa para Zuleima.
- E isso que tem? Desde que os pronuncio é que conheço a felicidade! E a vós a devo, D. Mendo!
D. Mendo, apertou nos braços a jovem moura, e disse-lhe que se iria ausentar por uns tempos. D. Afonso Henriques tinha solicitado os seus serviços.
Sete dias se passaram. E, de súbito, a algazarra de um grupo de mouros que haviam entrado no terreiro pôs Anasir e Zuleima em sobressalto. Entre os mouros um se destacou. Era Aben-Abed que vinha reclamar Anasir. Zuleima protegeu a sua ama com o corpo. Aben-Abed levantou o alfange e sem mais palavras cortou de um só golpe a cabeça da velha e dedicada aia. Louca de aflição, Anasir soltou o sétimo ai, que ficou repercutindo no espaço.
- Maldito sejas, Aben-Abed!
A voz, porém, extinguiu-se-lhe na garganta. O mouro ferira-a no peito, e era mortal, a ferida. No horizonte surgiu uma chama de fogo. Aben-Abed fugia pela segunda vez, abandonando as suas vítimas. O silêncio voltou a reinar na casinha do terreiro. Um silêncio profundo. Um silêncio de morte.
Quando D. Mendo regressou, ficou louco de dor. Deu ao terreiro o nome de Seteais em memória da jovem moura que ele tanto amava. Ao sair dali, jurou vingança. E nunca D. Afonso Henriques chegou a compreender a razão porque o seu súbdito D. Mendo de Paiva se tornara, desde a tomada do castelo de Sintra, um dos mais ferozes caçadores de mouros...
Lendas de Portugal
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