Era uma vez um jovem mouro conquistador de terras e de corações. De nome Abakir, reinava naquela região e a sua fama de invencibilidade abria-lhe sempre o caminho do desejo. Não havia terra que ele ambicionasse, que não acabasse por conquistar. Não havia mulher de quem ele se enamorasse, que não acabasse por ser sua. Dizia-se que o seu castelo, erguido em plena Serra da Nó, era o mais sumptuoso do mundo, tal a gama de riquezas que albergava.Um dia, quando Abakir cavalgava pela serra, viu a figura grácil de uma simples pastora de gado, que lhe fez bater mais forte o coração. No dia seguinte ordenou aos seus vassalos que lhe trouxessem a pastora.
- Quero que fiques comigo para sempre! - disse o jovem mouro.
A pastora recusou. A todas as promessas de riqueza e de uma vida melhor, disse não.
Abakir perdeu a paciência. Em altos berros, mandou que encerrassem a pastora numa das torres do castelo. Ela não mais recobraria a liberdade, enquanto não lhe pedisse perdão.
E o tempo foi passando.
E quem cedeu foi o jovem rei mouro. Certa noite, voltou à presença da sua prisioneira.
- A tua lembrança é mais forte que a minha vontade. Venceste! Ofereço-te o meu amor. Que queres tu de mim?
A moura fitou-o bem fundo nos olhos.
- Quero que te afastes das tuas outras mulheres. Ou serei a única mulher para ti, ou não serei tua.
- Aceito! De hoje em diante, serás a única.
- Ainda não disse tudo, - continuou a jovem -, não basta que te afastes das outras mulheres. É preciso também que me jures que não mais pensarás em qualquer outra. Assim o prometi a mim própria, quando te vi pela primeira vez. Juras?
- Juro!
E desse modo se selou para a eternidade um juramento de amor.
Abakir cumpriu todas as suas promessas. A bela pastora transformou-se em senhora e dona do reino, dominando o coração do rei.
Porém, um perigo se levantava no horizonte. Os cristãos avançavam de terra em terra na sua ânsia de conquista. Aqui e além, os mouros rendiam-se, outros fugiam. Poucos restavam, e entre esses poucos, ele, Abakir.
Abakir reuniu os seus amigos mais dedicados e a sua companheira.
- A hora é trágica. Aqueles que quiserem partir podem fazê-lo, levando tudo o que lhes for possível. Eu ficarei! Não posso pensar em ceder diante de um inimigo que tantas e tantas vezes consegui derrotar. Portanto, repito, eu ficarei!
- E eu ficarei também!
A voz da que fora pastora foi a única que se escutou, no meio do silêncio sepulcral. Abakir sorriu. Já o esperava...
Quase solitários no castelo da Serra da Nó, ambos continuaram a viver o seu grande amor terreno. Até que chegou a hora decisiva. A vanguarda cristã abria caminho para a conquista de mais um castelo: o famoso castelo da Serra da Nó.
O jovem rei enlaçou-se com a sua amada, num derradeiro abraço. E as suas bocas uniram-se no último beijo.
Abakir pegou no Alcorão, quebrou os sete selos do Livro, abriu-o e começou a ler. Depois, prostrou-se por sete vezes, beijando a terra. Por sete vezes despediu-se da vida e do mundo. Por sete vezes amaldiçoou o inimigo, que sentia muito perto de si. E, por fim, com a mão esquerda, tal como aprendera, fez um sinal de magia sobre a sua amada e sobre o castelo, enquanto pronunciava baixinho palavras misteriosas.
Quando os cristãos chegaram já não encontraram o castelo. Nem encontraram a linda moura. Nem encontraram Abakir, o jovem rei sucumbido. Não havia vestígios de qualquer deles em toda a serra da Nó, entre Ponte de Lima e Viana do Castelo. E nasceu a suposição de que tudo desaparecera por feitiço de Abakir.
Se alguém conseguir penetrar pela gruta que dá entrada para o castelo soterrado, ficará senhor de uma fortuna enorme. Toda a riqueza do imenso tesouro escondido no Castelo da Serra da Nó.
E diz-se que nas noites de luar se vê uma figura diáfana de mulher, reclinada em qualquer rochedo ou passeando pelas cristas da serra. Chamam-lhe a Guarda do Castelo. Ai daquele que a seguir, arrastado pela tentação! Não mais voltará à superfície da terra.
E diz-se que Abakir ali ficou enfeitiçado, por sua própria vontade, para defender um amor que o tempo não pode matar. E que às vezes aparece de improviso, sob as mais variadas formas, aos que tentam descobrir o mistério do castelo encantado.
Lendas de Portugal
Sem comentários:
Enviar um comentário